segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

A mais plausível origem do nome Lafões

A mais plausível origem do nome Lafões


* António Bica

Frei Joaquim de Santa Rosa de Viterbo nasceu na freguesia de Gradiz, concelho de Aguiar da Beira, em 1744. Foi pregador, director do Colégio da Lapa e dedicou-se a investigar o que então se chamava antiguidades.
Entre muitos trabalhos escreveu o «Elucidário das Palavras, Termos e Frases que em Portugal Antigamente se usaram.»
Este trabalho foi editado em dois volumes em 1798 e 1989; reeditado em 1865 por Inocêncio Francisco da Silva, com acrescentos; editado de novo em dois volumes em 1965 e 1966, por Mário Fiúza, de Viseu, por incentivo de Manuel de Paiva Boléu, Professor da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.
Consultou Mário Fiúza, para o trabalho, os muitos manuscritos de Frei Joaquim de Santa Rosa de Viterbo que se guardam na Biblioteca Municipal de Viseu.
No primeiro volume do referido Elucidário, escreveu Viterbo, na entrada ALAHOVEINIS, Alahoem e Alaphoen:
A Terra de Lafões, no bispado de Viseu. Na II parte da Bened. Lusit., trat. I, cap. VII, está a doação de Sancho Ortiz, feita no ano de 865, dizendo nela que seu irmão Paio Ortiz lhe dera a vila de Ortiz  pro parte mea de Mosteiro S. Christophori de Alafoins Ordinis Nigrorum S. Benedicti. Quando este documento fora legítimo, diríamos que sobre as ruínas do primeiro fundou João Peculiar o segundo mosteiro e ficaríamos certos que já no século IX se chamava Alafões esta porção do bispado de Viseu. No (ano) de 1070, Ximena Garcia fez doação a Alvito Sandezi da oitava parte da Igreja de Santa Maria de Várzea in território Alahoveinis e se moveu a isto pro que liberasti me de manu de Joanne Arias, qui me volebat concubare sine mea voluntate. Feita a carta no 1º de Maio. E.U. C. VIII. Regnante Adfonsus Princeps in Galicia, in Bracara Petrus  Episcopus in Colimbria Sisnandus Alvazir. Mandante Alahoveinis Piniolo Garcias.
O sacerdote Sindêa a escreveu e assinou na forma que se acha. Tab. I, nº 4. Assim se acha neste e noutros documentos de Arouca; do segundo e terceiro modo nos de Pedroso e do quarto em um de Tomar de 1169.
Daqui se mostra ser arbitrária a etimologia que Bernardo Brito, no II tomo de Monarquia Lusitana, cap. XXVIII, quis dar ao nome de Alafões dizendo que conquistando el-rei D. Fernando I, chamado a Magno, a cidade de Viseu, o seu governador mouro se fez cristão. Então o rei católico lhe consignou terras para a sua subsistência, entre as quais se compreendiam as que hoje fazem o concelho de Lafões, que tomaram este nome do tal mouro chamado Alahun. Não faz Brito mais fiador que a sua palavra e contudo achou sequazes dentro e fora do reino. Mas isto parece não ter fundamento, porque se de nomes que têm alguma semelhança havemos de buscar as etimologias de outros nomes. Muito antes da conquista de Viseu (que os nossos cronicões datam no ano de 1058 e Florez demonstra que foi no ano de 1057) lemos em uma doação do mosteiro de Cete, que hoje se acha no colégio da Graça de Coimbra, que, entre muitas testemunhas, nela assinaram no (ano) de 985, Alafun Augadiz.
E não parece verosímil que, havendo entre nós cristãos chamados Alafum, no século X, quase um século depois, tomasse aquela o nome de um mouro. Além disto, aquela terra não estava antes sem nome. Se mudou por honra do seu novo possuidor, que nos digam como dantes se chamava. Vimos acima o seu nome no (ano) de 1070; nos documentos de Pedroso se faz menção dela em outros mais antigos; então, em menos de dez anos, se fundaram igrejas e se mudaram inteiramente os nomes?

Em o Vocabulário Português de Origem Árabe, José Pedro Machado, na entrada Lafões, escreveu:
Do dual árabe «os dois irmãos»; segundo D(avid) L(opes) (em Revue Hispanique, IX, p. 15, e na R. Lus, 24º, p. 258), seria o «nome dado a dois castelos fronteiros perto de Viseu.» Em 1002 Alaphon (Dipl., p. 116), em 1064 Alafoens (Dipl, p. 274). O nome Lafão, na Beira Alta, talvez tenha sido deduzido de Lafões.

A origem do nome Lafões congeminada por Bernardo de Brito no século 17 a partir do derrotado governador mouro de Viseu, no século 11, pelo rei Fernando Magno não pode ser verdadeira como bem nota Viterbo.
A origem hipotizada pelo arabista David Lopes nas revistas Revue Hispanique e Revista Lusitana não é apoiada em documento, assentando no pressuposto de que no hoje chamado Monte do Castelo e certamente no monte vizinho chamado Monte Lafão haveria dois castelos, o que não corresponde à verdade por no Monte Lafão não haver sinais de ter nele havido tal construção nem em outro lugar próximo do Monte do Castelo, monte em que existiu um castelo como é atestado pelo nome (Monte do Castelo) e por documentos medievais.
A hipótese de David Lopes assenta no carácter aparentemente plural do nome Lafões, que corresponderia aos dois castelos.
Por sua vez José Pedro Machado considera que o nome Lafão (monte Lafão) terá sido deduzido de Lafões.

Não sendo convincentes estas explicações, talvez se deva procurar outra para o nome Lafões, que nos documentos medievais foi grafado de diversos modos pelos que os escreveram.
No volume XI da História da Administração Pública em Portugal nos séculos XII e XV, de Henrique da Gama Barros, 2ª edição dirigida por Torquato de Sousa Soares, paginas 221 e seguintes, sob a nota Alaphoen, Alahobeines, Alahouem, etc. (Alafões ou Lafões), consta a indicação de documentos medievais transcritos em Portugaliae Monumenta Historica com as respectivas datas e transcrições parciais. São:
Documento 190, ano 1002, transcrição parcial: Villa Cercosa subtus mons gabro discurrente rivulo cambar territorio alaphoen. Em português: Vila (povoado agrícola) de Cercosa (da freguesia de Campia), junto ao monte Gabro (hoje Serra do Ladário, mantendo-se o nome Gabro no topónimo Paredes de Gravo), águas vertentes para o rio Cambar (hoje rio Alfusqueiro), no território de Lafões.
[A versão em português e as notas entre parênteses são do autor deste texto].
Documento 268, ano 1030, transcrição parcial: ereditatem ... in território Alahobeinis subtus monte fuste discorrente ribulo bairoso et ave jacentia in fikeirosa. Em português: propriedade rural no território de Lafões junto ao monte (talvez da Gralheira), águas vertentes para o rio Varosa, em Figueirosa.
Documento 442, ano 1064, transcrição parcial: in villa sagadanes subtus monte fuste territorio Alafoens discurrente rivulo vauca. Em português: na vila (povoado agrícola) de Segadães junto ao monte (talvez da Gralheira), águas vertentes para o rio Vouga.
Documento 490, ano 1070, transcrição parcial: do tibi octaba de eclesia vocabulo sancta marie de varzena qui est fundata in territorio alahoveinis discurrente ribulo Vouga. Em português: dou-te a oitava parte da Igreja de Santa Maria de Várzea, águas vertentes para o rio Vouga.
Documento 621, ano 1083, transcrição parcial: in villa quos vocitant vaucella subtus mons aguto territorio alahouene discurrente rivulo vauga. Em português: na vila (povoado agrícola) que chamam Vouzela, junto ao monte (talvez do Castelo), no território de Lafões.
Documento 640, ano 1083, transcrição parcial: eclesia que vocatur sancti petri in terra alahueni. Em português: Igreja que se chama São Pedro (do Sul) na terra de Lafões.
Documento 774, ano 1092. Transcrição parcial: in villa quos vocitant sancta cruce territorium alafouenes subtus mons fuste discurrentem rivulo ibaroso. Em português: na vila (povoado agrícola) que chamam Santa Cruz (da Trapa) junto ao monte (talvez da Gralheira), águas vertentes para o rio Varosa.
Documento 789, ano 1092. Transcrição parcial: et abe jacentia ipsa ereditate in terra de alafoeis ... in vila que dicent sacti vicenti ... discorrente ribolo vauca. Em português: e situa-se essa propriedade rústica na terra de Lafões, na vila (povoado agrícola) que chamam São Vicente (de Lafões), águas vertentes para o rio Vouga.
Documento 875, ano 1098. Transcrição parcial: in villa abanatus subtus mons fuste discurrente ribulo barroso, território alahoen. Em português: na vila (povoado agrícola) de Abados junto ao monte (talvez da Gralheira), águas vertentes para o rio Varosa, no território de Lafões.
Documento 888, ano 1098. Transcrição parcial: in villa quos nunccupant iban ordonis suptus montis fuste discurrente rivulo sur, territorio alahouen. Em português: na vila (povoado agrícola) que chamam Bordonhos junto ao monte (talvez Gralheira), águas vertentes para o rio Sul, no território de Lafões.

De acordo com estes documentos é justa a crítica de Viterbo a Bernardo de Brito, tendo em conta que a data da conquista de Viseu aos mouros é posterior à de documentos de que consta que a terra de Lafões assim se chamava antes de tal conquista, mesmo que tivesse sido doada a terra ao alcaide mouro derrotado, ou que tal alcaide se tivesse chamado Alafun, o que não consta de nenhum documento.
A última sílaba do nome Lafões, aparentemente no plural, impressionou David Lopes, o que o levou a conjecturar que deriva da palavra árabe que significa “dois irmãos”. Por sua vez José Pedro Machado considera que Lafão (nome do monte a nascente do Monte do Castelo) derivará de Lafões.
Nem um nem outro parecem ter razão nas suas conjecturas que são hipóteses explicativas não alicerçadas em documentos.

Não havendo documento em que se possa alicerçar a origem do nome Lafões, o mais razoável é que, constituindo o hoje chamado Monte do Castelo, sobranceiro a Vouzela, e o monte Lafão uma unidade orográfica com dois cabeços muito próximos, ela fosse designada pelo povo que habitava a região no tempo anterior à conquista romana por nome que os romanos terão alatinado para Lafo. Quem sabe (muito ou pouco) de latim conhece que nessa língua para se dizer que algo era do (monte) Lafo se dizia Lafonis (o que significa, em português, do Lafão), palavra (Lafonis) que corresponde, segundo a gramática latina, ao genitivo de Lafo.
As palavras portuguesas derivadas do latim, que são a generalidade, correspondem à variação da palavra latina que indica o objecto da acção corresponde ao verbo, variação que é designada no latim por “acusativo”. O acusativo de Lafo é Lafonem.
Por isso o nome Lafo em latim passou em português a Lafão.

Com as invasões bárbaras, no século quinto, em Portugal, que puseram fim ao Império Romano, cada região foi dominada por um Senhor que procurava defendê-la de outros cubiçosos dela por castelo que construía, em regra em sítio elevado. No caso desta terra hoje conhecida por Lafões que corresponde ao Vale Médio do Vouga foi construído castelo no cabeço ocidental da unidade orográfica que se designava Lafo no latim que então se falava e veio a evoluir para Lafão na língua que hoje falamos.
Porque esse castelo se situava no monte Lafo (em latim) passou a ser designado por Castellum Lafonis que corresponde em português a castelo do Lafão. Porque era o centro militar e então consequentemente administrativo da terra do vale médio do Vouga, passou a dar o seu nome à região que assim, em latim, se passou a chamar terra do Castellum Lafonis e com o tempo apenas terra Lafonis, que veio a evoluir para terra de Lafões em português. Assim o nome da terra de Lafões veio a derivar do “genitivo” de Lafo e não do “acusativo” como derivou, segundo a regra, o nome do monte Lafão.
Quando os mouros conquistaram o vale médio do Vouga já a região do vale médio do Vouga era designada por terra de Lafões e assim continuou até hoje.
Porque o castelo foi construído no cabeço situado a poente da unidade orográfica designada Lafo (em português Lafão), o nome desse cabeço passou a designar-se Monte do Castelo como ainda hoje se chama, perdendo o nome original de Lafão, e tendo o cabeço situado a nascente onde nunca houve nenhum castelo, mantido o nome Lafão, como actualmente se designa.
Esta é a origem mais provável do nome Lafões por que é conhecida a região do vale médio do Vouga, resultando o nome Lafões de Lafão e não este daquele como proposto por José Pedro Machado.         

Sem comentários:

Enviar um comentário