terça-feira, 5 de abril de 2011

O acelerado desenvolvimento da riqueza mundial

O acelerado desenvolvimento da riqueza mundial e a defesa da cidadania
António Bica

Com o inicio da revolução económica industrial, no século 18, deixou a humanidade de estar condenada à pobreza generalizada resultante do pouco significativo crescimento da economia agrícola e pecuária largamente dominante.
A partir de então, com a aceleração do conhecimento científico, o consequente desenvolvimento de novas tecnologias de produção de bens e serviços, o aumento e massificação da escolarização para habilitar as novas gerações a dominar as novas técnicas de produção, a riqueza foi crescendo aceleradamente, embora com altos e baixos de aceleração e de depressão.
Depois da 2ª Grande Guerra, nos últimos 60 anos, estima-se que a economia mundial passou de cerca de 10 milhões de milhões de euros para cerca de 70 milhões de milhões actuais. Embora então a população no mundo rondasse os 3 mil milhões de habitantes, hoje é de cerca de 7 mil milhões. Apesar deste forte crescimento da população mundial a riqueza média produzida no mundo por pessoa subiu de cerca de 3.333 euros por ano para cerca de 10.000 euros. E o crescimento da produção de bens no mundo continua a crescer a cerca de 4,5% ao ano.
Se se mantiver este ritmo, a produção mundial de bens chegará aos 140 milhões de euros em 2030 e a 280 milhões de milhões em 2050.
Este crescimento, se for acompanhado por aumento demográfico proporcional, a população mundial passará para 14 mil milhões em 2030 e 28 mil milhões em 2050.
Este projectado crescimento da população e da produção de bens suscita receio de a prazo não longo os recursos naturais da Terra em água, ar, solo agricultável, minérios, fontes energéticas se esgotem por via de poluição (água e o ar) e da sobre-exploração (solo, minérios, fontes energéticas).
Mas é de esperar que o crescimento da riqueza mundial leve, a prazo, à estabilização da população, como nas últimas cinco dezenas de anos se tem verificado nos países mais ricos, na Europa, no Japão, na Rússia, nos EUA, no Canadá e na Austrália. Nestes o crescimento demográfico, onde o há, deve-se à imigração. Sem imigração, apesar de forte diminuição da mortalidade infantil e da longevidade, a população nesses países declinaria.
A tendência para a diminuição da natalidade nas sociedades com boa produção de bens e serviços por pessoa deve-se ao desenvolvimento de técnicas fáceis e seguras de controle de natalidade, da instrução massificada das populações com maior racionalização dos comportamentos individuais, e da riqueza que leva a faixa etária em idade de reprodução a limitar o número de filhos para os poder educar nas condições que considera melhores.
Sendo embora de esperar que a população no mundo se estabilize pelos 14 mil milhões, esse número e o previsível aumento do consumo de cada um desses habitantes possibilitado pelo crescente aumento da riqueza mundial podem levar ao desequilíbrio dos recursos naturais indispensáveis à vida dos humanos e demais seres vivos.
Os neoliberais defendem que do livre desenvolvimento das forças económicas resulta o melhor para as sociedades de cada país e para o mundo. Mas não é a isso que temos assistido. Os mais ricos nos países mais desenvolvidos estão a influenciar os respectivos governos com o seu poder económico e a determinar a opinião dos cidadãos através dos grandes meios de comunicação social, que controlam, para lhes dar liberdade de destruição dos recursos naturais sempre que isso lhes convém para aumentar a sua riqueza.
Reclamam que se acabe com as regras tendentes a proteger os menos ricos e todos os que vivem do seu trabalho nos campos da economia, das finanças e da comunicação social; se deixe progressivamente de proteger os que vivem do seu trabalho e os mais desfavorecidos; se aliviem de impostos as maiores fortunas; o Estado esteja sobretudo ao serviço dos mais poderosos para os segurar quando entram em crise, como aconteceu em 2008 com a grande crise financeira, distribuindo com dureza por todos os que vivem do seu trabalho os encargos da crise.
O acelerado desenvolvimento da riqueza no mundo exige, pelo contrário, melhor Estado, que, controlado pela participação democrática dos cidadãos na sua organização e na eleição dos que exercem o poder público, os defenda da ganância dos ricos, do seu controle sobre o Estado e da sua asfixiante influência sobre os grandes meios de comunicação social.   

A crise do euro e a defesa da riqueza em capital financeiro

A crise do euro e a defesa da riqueza em capital financeiro

António Bica

Com o colapso, em fins da década de 1980 e início de 1990, da União Soviética e dos países cuja política era por ela influenciada, a Alemanha Federal, conhecida por Alemanha Ocidental, anexou a República Democrática Alemã (Alemanha Oriental).
Seguiram-se 10 anos difíceis para a Alemanha resultantes da anexação ter sido feita sem período de transição.
Nesse tempo, a Alemanha, acabados os regimes socialistas a leste, justificando com a necessidade de integração da Alemanha Oriental, levou os seus trabalhadores a aceitar não aumentar os salários e reduzir os apoios sociais.
No início da década de 2000 estavam ultrapassadas as dificuldades resultante da integração da Alemanha Oriental.
Então a Alemanha e grande número de países da União Europeia adoptaram moeda única, o euro.
A Alemanha continuou a política de estabilidade de salários e de apoios sociais. A reorganização económica dos países a leste da Alemanha, depois do colapso da União Soviética, estimulou as exportações alemãs.
Os países mais pobres da União Europeia (Grécia, Irlanda, Portugal e Espanha), com a entrada na zona euro, estimulados pelos juros bancários baixos possibilitados pela adesão ao euro, deixaram que o recurso ao crédito se expandisse fortemente ao consumo, à construção de casas, ao desenvolvimento da infra-estruturas públicas e ao financiamento dos défices públicos orçamentais, o que estimulou as exportações alemãs para esses países.
Assim, na Alemanha, em consequência dessa política de contenção salarial e de benefícios sociais, o aforro cresceu. Entre 2002 e 2009 foi o aforro de 1,6 milhões de milhões de euros. Desse enorme montante, 1 milhão de milhões foi pelos alemães (famílias, empresas e bancos) investido no estrangeiro em empresas, casas e compra de acções, obrigações e dívida pública.
Grande parte desses investimentos foi feita na Grécia, na Irlanda, na Espanha e em Portugal.
Isso, conjugado com a onda de neoliberalismo económico e financeiro dominante, levou esses países ao excessivo endividamento dos bancos e a forte crescimento da dívida pública.
Com a crise económica de 2009 que se seguiu à financeira de 2008 os créditos restringiram-se. Nesses países (Grécia, Irlanda, Espanha e Portugal) os bancos passaram a ter dificuldade em financiar-se junto de outros e os governos a ter que pagar juros cada vez mais altos para financiar os seus défices orçamentais.
Nos países (sobretudo a Espanha), onde havia grande construção de casas para férias destinadas a estrangeiros, a procura sofreu forte redução.
A solução clássica para este tipo de crise, que foi usada na resposta à Grande Depressão económica de 1929 e agora seguida principalmente pelos EUA e pelo Japão, foi a de emissão de moeda para estimular a procura de bens e os investimentos públicos.
Dessa medida resulta a elevação dos preços com desvalorização da moeda, que o aumento da quantidade de moeda sem ser acompanhado de proporcional crescimento da produção de bens gera inflação. A Alemanha, cuja economia não foi afectada pela crise de 2009, continuando a exportar bastante mais do que importa e sem dificuldade de crédito, e tendo as suas empresas e bancos e os seus cidadãos muita riqueza acumulada em capital financeiro, é prejudicada pela inflação na zona euro de que faz parte.
Sendo significativa parte da riqueza alemã capital financeiro representado por euros, não lhe convém que na zona monetária que integra haja inflação com desvalorização do euro. Isso levaria a que a riqueza financeira detida pelos alemães se desvalorizasse na proporção do aumento da moeda em circulação.
Por isso o governo alemão insiste em que o Banco Central Europeu não emita moeda para fazer sair da crise de financiamento os países endividados da zona euro, que estão a ser forçados a reduzir nominalmente o poder de compra dos seus cidadãos para superar a sua crise de financiamento.
Em Portugal não se havia tomado medidas de redução nominal dos salários desde os primeiros anos do governo de Salazar.
Parece ser, pela primeira vez na História, sobreposição dos interesses dos detentores da riqueza em moeda aos dos demais cidadãos do mesmo espaço monetário.
O peso económico e político da Alemanha está a impô-lo.        

a origem da geração à rasca

A origem da geração à rasca
António Bica

Com o ministro Veiga Simão o ensino pós-primário até ao superior abandonou o sector profissionalizante, tendo eliminado as escolas comerciais e industriais. Assim o ensino foi organizado de modo a encaminhar todos os alunos para o ensino superior.
A medida foi bem acolhida pelas camadas sociais de que saíam os alunos dessas escolas, que sempre foram vistas como destinadas aos filhos das famílias mais pobres.
Esta reforma Veiga Simão foi mantida pelos governos pós 25 de Abril, que nenhum partido quis, julga-se que bem, regressar à diferenciação anterior a Veiga Simão, nem teve a lucidez de prever que, não recebendo os alunos do pós-primário até ao superior preparação profissionalizante, haveria duas consequências prejudiciais:
A primeira para os alunos que abandonassem o ensino ou sem concluir o pós primário ou sem ingressar no superior.
A segunda para a economia, a que passou a faltar oferta de profissionais de formação não superior, tendo que admitir trabalhadores sem formação profissional, à espera que aprendessem trabalhando, com a consequente ineficiência.
O sistema de ensino depois de Veiga Simão, com o melhorar das condições de vida dos portugueses pós 25 de Abril, levou a forte procura do ensino superior. A resposta a isso pelo ministro socialista Cardia não foi a que deveria ter sido:
 Repensar o ensino pós-primário até à entrada no superior e, sem regressar ao sistema anterior a Veiga Simão, preparar os alunos para entrar no ensino superior e simultaneamente para exercer as múltiplas profissões indispensáveis à economia que não exigem preparação superior (electricistas, mecânicos, carpinteiros, contabilistas e tantas outras), se viessem a optar por não ingressar no ensino superior.
Em vez disso o ministro socialista Cardia afunilou a entrada no ensino superior, estabelecendo para cada curso limites quantitativos, sem se preocupar com a formação profissional dos que não entrariam no ensino superior e tinham necessidade de exercer uma profissão.
A este erro a merecer palmatória seguiu-se o do governo de Cavaco Silva, que, para responder à enorme procura do ensino superior pelos alunos que não entravam nas Universidades até então todas públicas, permitiu a livre criação de Universidades privadas sem suficientes fiscalização e controle de qualidade.
Isso, tendo feito baixar muito a qualidade da formação académica dos licenciados nas Universidades privadas, levou ao excesso de oferta de licenciados para a correspondente disponibilidade de empregos para esse nível de formação e à falte de profissionais habilitados com formação não superior.
Os empregos que não exigem formação superior, com a falta de oferta por nacionais mediante salários que os emigrantes aceitavam, passaram a ser ocupados por não nacionais (brasileiros, nacionais das ex-colónias, ucranianos e outros).
Entretanto, há cerca de duas décadas, começaram a ser criadas escolas de formação profissional destinadas aos alunos que abandonaram o ensino pós-primário. Foi solução insuficiente e inadequada por sofrer do estigma de diferenciação social que marcaram durante o salazarismo as escolas comerciais e industriais. Os alunos dessas escolas tendem a ser vistos como menos capazes por terem abandonado o ensino de preparação para entrada no superior.
Assim se foi caminhando de erro em erro no que respeita ao ensino em Portugal desde a reforma Veiga Simão. Em regra as adequadas reformas políticas só são feitas, ou por revolução (quando a casa vai abaixo) ou tarde e a más horas (quando uma trave está podre). É que, na política sempre acontece como, criança, ouvi dizer a uma sensata velhinha comentando o desconcertos da vida: «tudo vai como vai, nada vai como deve.»
Em 12 de Março a geração dos muitos novos licenciados sem emprego desceu à rua em Lisboa e em muitas outras cidades do país. Foram acompanhados por numerosos pais. Uns e outros estão frustrados. Os filhos porque não encontram trabalho, os pais porque esperavam para os filhos o bom e estável emprego que, quando eram jovens, uma licenciatura garantia.
A muitos jovens licenciados se ouviu na manifestação: «vou emigrar». Em Portugal, hoje, porque se não planeou adequadamente o sistema de ensino, desde o início da década de 1970, gastam-se milhões e milhões a formar licenciados que, não encontrando agora no país a saída profissional que querem, terão que emigrar. Assim está Portugal a preparar trabalhadores qualificados com formação superior para os deixar ir para os países mais ricos enquanto lhe falta trabalhadores com adequada formação não superior.
A falta de preparação profissional pelos jovens que abandonaram o ensino pós-primário levou à falta de trabalhadores portugueses para empregos que não exigem formação superior e à imigração para Portugal de trabalhadores de outros países, o que tem contribuído para manter baixos os salários nesses empregos.
Acresce a isto a crise das finanças públicas que a Alemanha nos está a impor (como a outros países da zona euro) para salvaguardar o valor do euro e com ele a imensa riqueza em moeda acumulada pelos bancos, as empresas e os particulares alemães.
É de todo o país este enrascanso e não só da geração à rasca que se manifestou em 12 de Março de 2011, convocada pelos modernos meios de comunicação social.
Está à rasca, mas é instruída e culta. Talvez por isso não tenha descambado em violência urbana.      

Fim do socialismo real. Crise do capitalismo

Fim do socialismo real. Crise do capitalismo. Que modelo alternativo?

António Bica

            O capitalismo assenta no comportamento humano que é traduzido pela imagem de Adam Smith no livro “Riqueza das Nações”: “Não devo o meu almoço à generosidade do merceeiro, mas à sua vontade de ganhar dinheiro”.
            Os defensores do capitalismo partem dessa afirmação para outra: “O merceeiro que vender mais barato os produtos para o meu almoço é aquele a quem os comprarei. Assim beneficiarei tanto mais com a concorrência entre eles, quanto mais livres estiverem os merceeiros de regulamentos públicos sobre a sua actividade”.
            Este entendimento do capitalismo, além de ter levado a economia à grande crise de 1929 com falência, só nos EUA, de 2.500 bancos, tendo o mercado de acções então perdido 90% do seu valor, o desemprego subido para 33% e a produção perdido 20% do seu valor. A livre concorrência levou o sistema de economia capitalista à maior crise de sempre até então.
            Agora voltou a grande crise do sistema. Desde 2007 as bolsas nos EUA perderam 25%. Grandes bancos e outras instituições financeiras nos EUA e na União Europeia foram nacionalizados para não falir e os Estados e os bancos centrais estão aceleradamente a criar moeda em valor que ultrapassa já 1,5 milhões de milhões de euros e talvez chegue a 5 milhões de milhões.
            O desastre económico e financeiro de 1929 poderá não se repetir hoje com a mesma gravidade, porque se aprendeu com a experiência do passado. Mas é de esperar que a crise não acabe tão cedo. A de há 70 anos durou 5 anos. Esta já passou de 2, sendo previsível que dure mais um ou dois anos.
            A saída da crise está a ser feita com criação de moeda em enormes quantidades, o que vai levar a desvalorização acelerada dos depósitos bancários com redução real dos rendimentos fixos (salários e pensões). Vai ser essa a forma de distribuir por todos cidadãos a gigantesca fraude financeira estadunidense estimável em 5 milhões de milhões de títulos “tóxicos”, que não são mais que ar e vento.
            Há que reflectir sobre o colapso do modelo do chamado “socialismo real”, no início da década de 1990 na União Soviética e nos países que seguiam o seu modelo político e económico, e reflectir sobre as crises do capitalismo que se repetem em ciclos de cerca de 10 anos e nas catastróficas crises do capitalismo que se repetem em espaços de tempo de muitas dezenas de anos.
            A afirmação de Adam Smith sobre as razões que levam o merceeiro a vender a quem lhe quer comprar merece ser tida em conta. A economia desenvolve-se movida pelo interesse de cada um em ter comida, abrigo, segurança e saúde. Mas não se pode deixar que cada um o procure fazer sem respeitar princípios básicos de equidade e justiça. cabe à sociedade organizada, isto é, ao Estado, assegurar que esses princípios básicos sejam respeitados.
            Assim o poder deve procurar criar adequadas condições, deixando e mesmo promovendo que cada um procure o melhor para si com equidade e justiça, sem deixar que os menos capazes caiam no desamparo ou exclusão, função esta que deve ser garantida pelo poder público. A construção da sociedade mais justa é em primeiro lugar tarefa de cada um de nós os que pensamos que assim deve ser, cabendo ao poder definido periodicamente por todos os cidadãos por eleições livres e periódicas procurar criar as melhores condições para isso.
            A cada um cabe procurar o melhor para si pelo trabalho, que por ele se conquista a segurança pessoal, que o sentimento mais angustiante é o de insegurança de vida.
A produção de bens organiza-se em base económica e não em base moral. Isso significa que ambas as partes (o empregador e o trabalhador) devem poder livremente pôr fim, por razões económicas, à relação de trabalho com indemnização para o trabalhador, se a decisão for do patrão (sendo razoável a regra de um mês por cada ano de trabalho). Isto é necessário para que a economia tenha boa flexibilidade, que toda a rigidez é entrave ao progresso.
Se a motivação para o despedimento não for económica, deverá haver penalização (indemnização agravada se a causa tiver origem em facto do empregador, perda de indemnização se com origem no trabalhador).
Sendo o trabalho a segurança de vida do trabalhador, há que resolver o conflito entre o direito do trabalhador à segurança de vida e a flexibilidade da economia. Isso poderá ser assegurado pelo trabalho em empresas de emprego social a organizar a nível municipal financiadas com dinheiro do sistema de segurança social, substituindo o pagamento de subsídio de desemprego.
O trabalho em empresas de emprego social não seguirá a lógica da racionalidade económica, mas a de garantir ocupação socialmente útil a todos os trabalhadores temporariamente fora do sistema de produção, em actividades de apoio a associações culturais, desportivas, ambientais, de apoio social e semelhantes nas suas actividades não lucrativas. Assim esses trabalhadores produzem e evita-se a fraude que todos os sistemas de subsídio proporcionam.
O principal factor de progresso social e civilizacional é o desenvolvimento da economia com crescimento da riqueza colectiva. O desenvolvimento da riqueza colectiva é factor decisivo para o avanço das sociedades humanas no caminho da democracia e da solidariedade.
São as condições para que haja desenvolvimento da economia, por ordem de prioridade:
- Promoção do conhecimento científico pela investigação.
- Aquisição permanente de conhecimento por todos.
- Cuidados básicos de saúde para todos.
- Não deixar cair ninguém no desamparo e na exclusão.
- Definição do poder público, a todos os níveis, por todos os cidadãos, por eleições periódicas livres.
- Fazer assentar, tanto quanto possível, a organização da sociedade em automatismos, de modo que a necessidade de intervenção da autoridade pública se reduza ao mínimo, devendo sobretudo procurar criar condições para o melhor funcionamento dos automatismos.
- Assegurar condições para a máxima mobilidade económica e social.
- Respeitar os direitos constantes da Declaração Universal dos Direitos do Homem.
- Ter em conta que, enquanto houver escassez de bens, cada um terá que ser remunerado segundo o seu trabalho, o que foi defendido pelos teóricos clássicos do socialismo, que só para as sociedades de super abundância (o utópico comunismo) defenderam: de cada um segundo as capacidades, a cada um segundo as necessidades.
O contínuo desenvolvimento económico não pode levar ao desequilíbrio irreversível do ambiente, tornando impossível a vida humana na Terra, que a economia é a produção de bens (objectos e serviços) para benefício dos seres humanos. Toda a acção económica que se desviar disso é perversão da economia, como é a fraude nos negócios, a falsificação de mercadorias, a fuga aos impostos em regimes políticos democráticos.
Os que lucram com essas perversões da economia podem levar a desequilíbrios irreversíveis, devendo ter-se em conta que a produção industrial de comida tem levado à degradação das condições de saúde das populações por desequilíbrio alimentar de que a manifestação mais visível é a progressiva tendência para a obesidade;
o uso excessivo de combustíveis fósseis tem contribuído para o aquecimento global da Terra;
a produção de numerosos (e em grandes quantidades) complexos produtos químicos tem contribuído para desequilibrar o clima e mesmo a biologia dos seres vivos;
a escandalosa produção e utilização de armamento clássico, químico (não esquecer o uso de famoso «agente laranja» no Vietnam pelo exército norteamericano), biológico,  atómico e outros têm causado mortes, doenças e malformações em humanos e outros seres vivos;
            as fraudes na qualidade dos bens, os subornos, o uso de “paraísos fiscais”, o contrabando, a fuga aos impostos e outras práticas económicas desonestas são factores de prejuízo para o desenvolvimento económico, não podendo ser tolerados.
Os grandes meios de comunicação social, nas mãos dos grandes interesses hegemónicos que controlam a economia e a política dos Estados, procuram levar os cidadãos a pensar e a agir em conformidade com os interesses dos que os controlam, e a aceitar as práticas iníquas e mesmo criminosas que demasiadas vezes usam.
A contínua luta popular por direitos económicos e políticos levou progressivamente à conquista do direito de cada cidadão participar na definição do poder político por eleições livres e periódicas. É conquista tão importante no caminho da humanidade para organização mais justa como a da abolição da escravatura. Por outro lado o desenvolvimento científico e tecnológico possibilitou, aos que controlam política e economicamente os Estados, adquirir e usar técnicas de controle da opinião pública através dos grandes meios de comunicação social e das universidades que tendem a estar ao serviço de quem lhes paga.
Os que controlam a economia e por via dela a política são os que usam os meios para condicionar o pensamento e o comportamento dos cidadãos por cujo voto se define o poder, para que não lhes fuja das mãos.
Sendo assim não restará senão procurar tomar o poder por outros meios para substituir a definição do poder político através do voto universal e periódico por formação política capaz de impor organização económica e política que garanta a igualdade efectiva de todos.
Mas esse objectivo político nunca pode levar a sociedade justa, porque esta se funda na concepção de que todos os homens são iguais por natureza. Consequentemente não se pode aceitar que o poder político se defina de outro modo senão pela vontade livre e periodicamente manifestada por todos.
Não respeitar esse princípio é aceitar que o domínio político pelos mais poderosos sempre que julgam correr o risco de perder o poder, como, por exemplo, aconteceu na Europa, na primeira metade do século 20, com o derrube de regimes democráticos para impor regime ditatoriais fascistas e nazis, e como aconteceu, depois disso, em muitos outros países, de que apenas se cita, como exemplo, o escandaloso caso do Chile em 11 de Setembro de 1973, em que Pinochet derrubou pela força o legítimo poder democrático que jurara defender.
A organização da sociedade deverá assentar, tanto quanto possível, em automatismos, de modo que a intervenção da autoridade pública se reduza ao mínimo. Para isso é necessário criar mecanismos de autocorrecção social,.
Que uma sociedade humana é demasiado complexa para poder ser entendida por uma parte dela em termos de essa parte ser capaz de determinar o funcionamento e o evoluir sem contradições.
Até agora as sociedades humanas evoluíram de forma não dirigida. O seu progresso tem resultado de leis que nos últimos séculos e neste se têm procurado determinar.
Mas estamos longe de conhecer todos os complexos mecanismos do funcionamento e do evoluir das sociedades humanas e provavelmente nunca se conhecerão completamente, não obstante o contínuo progresso nesse sentido.
É desejável que as sociedades sejam flexíveis, evoluindo sem roturas causadoras de grandes prejuízos.
Não sendo possível determinar completamente o evoluir e o funcionamento das sociedades por desconhecimento da sua complexidade, a organização das sociedades terá que procurar facilitar a flexibilidade com os mecanismos de autocorrecção económica e social de modo que as alterações se tendam a processar de modo imediato ou quase imediato com o mínimo de intervenção da autoridade pública e consequentemente sem rupturas.
A autoridade pública terá assim que intervir fundamentalmente para, pela investigação, aprofundar o conhecimento das leis que regulam o funcionamento e o evoluir das sociedades e, na base desse conhecimento, aperfeiçoar continuamente os mecanismos sociais de autocorrecção. Só nos casos em que os mecanismos de autocorrecção não resolverem as disfunções sociais e económicas é que se tornará preciso intervir para procurar resolvê-las e aperfeiçoar os mecanismos de autocorrecção de modo que, no futuro, solucionem o mesmo tipo de contradições.
O trabalho baseia-se em relação de natureza económica e não moral. Há que o organizar de modo a levar à máxima produtividade com justiça.
Um trabalhador que vende a sua capacidade de trabalho a outra pessoa procura vendê-la bem, isto é receber por ela remuneração tão alta quanto possível. Como o comprador da capacidade de trabalho tem necessidade de a transformar em bens, procura que a produção de bens por cada trabalhador seja tão grande quanto possível. É o que se designa por produtividade: a relação entre o tempo de trabalho e a quantidade de bens produzidos.
De que depende a produtividade? Fundamentalmente de três circunstâncias: a tecnologia usada na produção, o grau de conhecimentos do trabalhador e o seu empenhamento pessoal.
Quanto à tecnologia usada, ela é decidida pelo empregador, dependendo apenas dele. O empregador é que decide, ao, por exemplo, pôr o trabalhador a fazer cópias de documentos, se compra para isso fotocopiadora, se máquina de escrever, ou se as cópias são escritas à mão.
No caso da construção de uma estrada, o empresário é que decide se vai nela utilizar a melhor e mais potente maquinaria de escavação e de transporte de aterro, ou se a construção vai ser feita a pá e picareta e o transporte do aterro em carros de mão.
Como decorre destes dois exemplos, a produtividade de cada trabalhador é muitíssima maior se a tecnologia que o empregador usar for a melhor.
A produtividade dos trabalhadores depende fundamentalmente da tecnologia que for usada no processo produtivo, sendo a escolha da tecnologia da responsabilidade do empregador. Se o empregador não usar a melhor tecnologia é por rotina, desconhecimento, ou por não querer fazer o necessário investimento.
O grau de conhecimentos do trabalhador é também factor significativo para a produtividade. Mas as habilitações de cada trabalhador são definidas pelo empregador quando o contrata, podendo exigir as habilitações que entender como condição para contratar. Se, depois de ter empregado o trabalhador, quiser que ele melhore os conhecimentos tecnológicos, compete ao empregador fazer a preparação profissional do trabalhador com cursos adequados.
Há finalmente que referir o empenhamento pessoal do trabalhador, que resulta da relação que se estabelecer entre o trabalhador e o empregador. Há empregadores que consideram que para obter boa produtividade devem ser rudes e às vezes brutais com os trabalhadores, procurando assim forçá-los a produzir o mais possível. A normal tendência do trabalhador, que vende a sua capacidade de trabalho por uma quantia periódica mensal fixa e independente do que produz durante o correspondente período de tempo, é esforçar-se o menos possível, dando o mínimo de empenhamento em troca da remuneração, se ela não variar em função da quantidade de bens produzidos. Os empregadores mais inteligentes, em vez de usar métodos ríspidos e repressivos, procuram usar critérios de remuneração que tenham em conta o grau de empenhamento dos trabalhadores, remunerando-os em função desse empenhamento e do que produzirem, o que corresponde ao princípio a cada um segundo o seu trabalho.
            Não se pretende com isto mais do que reflectir sobre o aprofundar da democratização das sociedades e a maximização do desenvolvimento económico em bases equitativas e justas.

A China vai tornar-se o país com maior influência no mundo nas próximas décadas

A China vai tornar-se o país com maior influência no mundo nas próximas décadas

António Bica

            Antes da chegada ao poder, na China, do partido comunista, em 1949, os chineses viviam na mais dura miséria, sendo ocupado o seu litoral, até à década de 1930, pelos EUA e por alguns países europeus (Inglaterra, França e Alemanha). Com a década de 1930 chegou a invasão militar japonesa que expulsou da China os “ocidentais”, massacrou centenas de milhares de chineses e se propunha dominar para sempre o litoral chinês, a Manchúria e a Formosa, que o Japão havia optado pela via capitalista antidemocrática surgida após a primeira grande guerra, paralela à dos fascismos europeus e sul-americanos.
O partido comunista chinês, que se organizou no início da década de 1920 nas cidades do litoral, foi combatido pelo Kuomintang, partido então no poder, liderado por Chang Kai Chek. Para sobreviver, a direcção do partido comunista conduziu os membros mais combativos para as províncias do noroeste, no êxodo conhecido por “Longa Marcha”. Aí resistiu ao Kuomintang, e passou a combater os japoneses, ao contrário de Chang Kai Chek, que com eles contemporizou.
A luta dos comunistas contra os japoneses, acompanhada da entrega dos latifúndios aos camponeses, que pagavam pesadas rendas, prestigiou-os.
Em Agosto de 1945 os EUA lançaram bombas atómicas sobre Hiroxima e Nagasaki. Em consequência disso o governo japonês rendeu-se incondicionalmente, ficando sem comando militar eficaz, sem reabastecimento nem substituição dos efectivos do exército de ocupação da China. Isso possibilitou aos comunistas chineses uma ofensiva vitoriosa contra os japoneses, enquanto as forças do Kuomintang se mantiveram na defensiva.
O povo chinês passou por isso a apoiar os comunistas contra o Kuomintang, que foi derrotado e se acantonou em Taiwan, porque os EUA impediram os comunistas de aí desembarcar.
            Em 1949 foi declarada a libertação da China continental e a constituição da República Popular da China liderada pelo partido comunista.
Desde então a China procurou caminho para o desenvolvimento económico, social e político e para a sua afirmação no concerto das nações. Foi tarefa difícil, porque no campo económico partira da destruição causada pela guerra, da ausência de escolaridade para a generalidade do povo, da falta de serviços de saúde, de vias de comunicação e de indústria. Os EUA vetaram no Conselho de Segurança da ONU o reconhecimento da República Popular da China, impondo o governo de Taiwan (Formosa) como sendo o da China, situação que permaneceu até meados da década de 1970, em que os EUA estabeleceram relações diplomáticas com a China e deixaram de impor o governo de Taiwan como representante da China.
\           Pouco depois o presidente Mão morreu e a liderança passou para Xiao Ping, que, bem entendendo que o desenvolvimento social e político tem por fundamento o desenvolvimento económico, levou o partido comunista chinês, no início da década de 1980, a via de desenvolvimento semelhante à que foi seguida pelo Japão, após a mudança política que fez no início da segunda metade do século 19, e foi continuada depois da derrota na segunda grande guerra: produção de bens assente nas iniciativas privada e pública sob orientação estratégica do Estado.
A opção por esta via de desenvolvimento, com apelo ao sentimento de patriotismo dos muitos milhões de chineses que haviam emigrado e eram nos países onde viviam empresários capazes, levou ao afluxo à economia chinesa de grandes massas de capital e de capacidade tecnológica.
Em simultâneo a China procurou melhorar o ensino, as infra-estruturas de transporte, de comunicações, controlar o crescimento demográfico, e manter-se discreta em política internacional, evitando hostilizar os EUA sem se lhes subordinar.
Em consequência a economia chinesa entrou em crescimento acelerado, com taxas de crescimento anual de cerca de 10%.
Com o desenvolvimento económico e o consequente desenvolvimento social e político, a China procurou retomar o controlo político dos territórios que havia cedido à Inglaterra (Hong Kong), a Portugal (Macau) e da ilha de Taiwan (Formosa) que em 1949 se separara da China com o activo apoio dos EUA.
Hoje a República Popular da China, segundo a imprensa económica, terá ultrapassado o Japão em produção de bens, o que a guinda à posição mundial de segunda potência, embora não procure reivindicar esse estatuto.
O governo chinês, sob a liderança do partido comunista, tem revelado sensatez, moderação, paciência, mas determinação na defesa da sua autonomia e no desenvolvimento económico.
O tamanho geográfico da China e a sua população (um quinto da mundial), a cultura de disciplina, a determinação da direcção política em prosseguir no caminho do desenvolvimento económico e da afirmação política sem arrogância nem agressividade militar poderão levar a China, em algumas décadas, a tornar-se o país mais influente no mundo.
Pelo seu passado histórico milenar, não parece haver que temer que a China se transforme em potência militar agressiva e expansionista como foram alguns países ocidentais e o Japão.

A propósito de viagem a Cuba

Considerações sobre Cuba a propósito de viagem em 2007 e das anunciadas reformas políticas e económicas


António Bica



Em viagem a Cuba em 2007 pareceu-me, pelo que vi, li e falei com habitantes, que o país resolveu no essencial e a nível considerável bom os problemas de educação e saúde, que são gratuitos para toda a população e têm qualidade. Os crimes violentos são raros, havendo razoável segurança nas ruas, mesmo de noite.
A cidade de Havana tem 2,3 milhões de habitantes. O alojamento é encargo pequeno (até 5% do salário mensal) e as necessidades básicas de alimentação são asseguradas por quota alimentar (por pessoa) vendida a preço bastante baixo.
Asseguradas as necessidades básicas da população (alojamento, alimentação, saúde e educação) não restam aos cubanos grandes recursos para outras despesas. São poucos os carros e, dos que há, um bom número tem 20 ou 30 anos. Apesar disso a frota de taxis parece suficiente. Muitas casas aparentavam pelo exterior precisar de pintura e de reparação.
A impressão colhida é de sociedade remediada e fraterna com as necessidades básicas resolvidas a nível muito mediano, sem grandes desníveis. É grande o contraste com o que se conhece da generalidade dos países da América Latina, onde muitas crianças vivem ao abandono, há muita criminalidade violenta e a riqueza e a ostentação dos bairros das elites se exibe ao lado da flagrante miséria das favelas, dos morros, dos bairros de lata.

A Revolução Cubana foi feita na passagem da década de 1950 para a de 1960, há mais de 50 anos. A maioria da população portuguesa, incluindo as camadas mais instruídas, não tem memória do país que era Cuba então. Governada, ou, melhor, desgovernada por Fulgêncio Baptista, ditador que disponha do país como se fosse coutada sua, era como que o quintal das traseiras dos EUA, que estão a poucas dezenas de milhas a norte, e dominavam a economia e a política cubanas. A Máfia norte-americana tinha aí, no hoje nacionalizado Hotel Nacional, o seu quartel-general e grande casino, onde mandavam os seus principais cabecilhas, entre eles o conhecido Lucky-Luciano. O povo vivia na miséria, vendendo, se tinham quem os contratasse, por baixos salários a sua força de trabalho nos campos de cana de açúcar aos norte-americanos e as suas filhas a prostituir-se na cidade de Havana.
A Revolução restituiu a dignidade ao povo cubano e foi chama animadora para que a América Latina iniciasse o lento caminho da emancipação dos EUA.

Apesar dos Estados Unidos da América do Norte desde então boicotarem quanto podem a economia cubana, o país resiste. A preocupação com a justiça social do regime político e a forte base ética assente na vida modesta dos dirigentes legitimam o regime aos olhos da maioria da população. Mesmo em períodos difíceis, como o que se seguiu a 1990 com o colapso dos países socialistas europeus, tendo o produto interno bruto caído então 35%, a unidade à volta dos dirigentes políticos não foi destruída. A direcção política soube dar resposta às graves dificuldades económicas, abrindo então ao investimento estrangeiro com empresas em parceria com o Estado Cubano sendo metade do capital de cada parte e admitindo que a população crie pequenas empresas familiares que não contratem outros trabalhadores. A economia cubana retomou com essas medidas o crescimento, procurando a política cubana manter o princípio de não haver cubanos a comprar  força de trabalho a outros cubanos. Por essa razão o regime não autorizava até agora que as empresas de cubanos recorram a outro trabalho que não o familiar.

Esta restrição tem impedido que os cubanos com maior iniciativa e criatividade impulsionem o desenvolvimento económico da sociedade. Pode estimar-se que numa sociedade cerca de 10% da população tem boa capacidade de iniciativa, de criatividade e de gestão, enquanto percentagem semelhante, no extremo oposto, não tem capacidade para governar a sua vida e produzir para as suas necessidades precisando de receber apoio da sociedade. Os restantes, cerca de 80%, são normais trabalhadores, muitas vezes excelentes, desde que bem enquadrados em organização produtiva. Dificultar que num país os cerca de 10% da sua população com criatividade, capacidade de iniciativa e de gestão desenvolvam as suas capacidades em actividades diversas, nomeadamente económicas, desde que respeitadas regras básicas de justiça, solidariedade social e equidade, faz diminuir a eficiência geral da sociedade em todos os campos, em especial no económico. A compra de força de trabalho e a consequente possibilidade de exploração económica, não pode ser erigido em tabu quando se pretende construir uma sociedade mais justa. Por medidas legislativas e outras é possível estabelecer normas e práticas que garantam os direitos dos trabalhadores e a observância da regra socialista básica de justiça: a cada um segundo o seu trabalho, sem deixar de se prestar o necessário apoio aos que dele necessitam de acordo com o nível geral de riqueza da sociedade.

Com a separação, no fim da Segunda Grande Guerra, da Alemanha em dois Estados, um, a República Democrática Alemã, organizado segundo princípios tidos por socialistas, outro, a Alemanha Federal, segundo as regras do capitalismo, tornou-se claro que grande número de trabalhadores da República Democrática Alemã teria ido trabalhar para a Alemanha Federal, onde os salários eram mais elevados, se não tivessem sido estabelecidas barreiras dificilmente transponíveis na fronteira entre os dois Estados, incluindo na cidade de Berlim (o chamado muro de Berlim).
Impõe-se concluir que a média dos trabalhadores prefere ganhar mais, mesmo sendo explorada, do que, hipoteticamente não o sendo, ganhar menos.

Há, por outro lado, que reflectir se é possível com eficiência, num Estado, regular centralmente toda a vida social, cultural e económica como se tentou sem êxito na União Soviética e nos países do “socialismo real”.
Uma sociedade humana é demasiado complexa para poder ser entendida por uma parte de si mesma em termos de essa parte ser capaz de dirigir o seu evoluir e funcionamento sem contradições.
Até agora as sociedades humanas evoluíram de forma não dirigida. O seu progresso tem resultado de leis que desde o século 18 se têm procurado determinar. Mas estamos longe de conhecer todos os complexos mecanismos do funcionamento e do evoluir das sociedades humanas e provavelmente nunca se conhecerão completamente, não obstante o contínuo progresso nesse sentido.
É desejável que as sociedades evoluam sem roturas causadoras de grandes prejuízos e sofrimentos.
Não sendo possível determinar completamente o evoluir e o funcionamento das sociedades por não conhecimento suficiente da sua complexidade, a sua organização terá fundamentalmente que procurar facilitar os mecanismos de autocorrecção económica e social de maneira que as alterações se tendam a processar de modo gradual e imediato, ou quase imediato, com o mínimo de intervenção da autoridade pública e consequentemente sem roturas, que sempre são causadoras de sofrimento.
A autoridade pública terá que intervir fundamentalmente para, pela investigação, aprofundar o conhecimento das leis que regulam o funcionamento e o evoluir das sociedades e, na base desse conhecimento, aperfeiçoar continuamente os mecanismos sociais de autocorrecção. Só nos casos em que os mecanismos de autocorrecção não resolverem disfunções sociais e económicas é que se tornará preciso intervir para procurar resolvê-las e introduzir novos mecanismos de autocorrecção que, no futuro, solucionem o mesmo tipo de contradições.

Uma sociedade humana é assimilável a corpo humano vivo. À inteligência, que é a função superior do corpo, não compete regular cada uma das suas múltiplas e complexas funções, cujas leis a inteligência em grande parte desconhece. A função da inteligência em relação ao corpo é a de procurar resolver os problemas de funcionamento e desenvolvimento que os automatismos biológicos não são capazes de solucionar. A inteligência de cada homem não se ocupa do funcionamento dos diferentes órgãos do corpo (coração, aparelho digestivo, pulmões, rins, glândulas, etc.). Se, por exemplo, for necessária água no organismo, desencadear-se-á alarme da sede que vai obrigar a inteligência a perceber que tem que lhe ser fornecida água. O coração funciona sem que a inteligência se ocupe dele. Mas se surgirem dores provenientes do seu deficiente funcionamento, a inteligência actua de modo a que haja intervenção (remédios, dieta, etc.).

A compra por um indivíduo a outro da sua capacidade de trabalho não é necessariamente fonte de injustiça inaceitável, se for regulada por normas e práticas capazes de assegurar o razoável equilíbrio das prestações mútuas.
O que não é aceitável é o imposto pelas grandes empresas transnacionais sob o comando do governo dos Estados Unidos da América do Norte: O neo-liberalismo global está a tornar os países ricos cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres, e, nuns e noutros, os indivíduos ricos cada vez mais ricos enquanto a miséria, o crime, a insegurança e a poluição crescem.
Cuba está a procurar construir uma sociedade alternativa à dominante no mundo de hoje. São de saudar a sua vontade e a sua determinação. O caminho que está a seguir merece reflexão e sempre ajustamentos, que o que hoje é solução adequada com o desenvolvimento posterior deixada de o ser.


Em 2010 o governo cubano anunciou projecto de reforma do seu sistema económico, prevendo o alargamento da actividade privada  a significativo número de sectores da economia.
Prevê-se que grande número de trabalhadores do Estado opte por trabalhar em actividades económicas privadas.  É de esperar que, se a transição for razoavelmente planeada e posta em prática sem roturas sociais significativas, a economia cubana entre em apreciável desenvolvimento, porque a generalidade  dos cubanos beneficia de bom nível de ensino com formação profissional e todos beneficiam de  serviços de saúde de qualidade. Como se sabe,  o conhecimento e a saúde são dos principais factores da produtividade do trabalho.
Não é possível prever com segurança como a reforma vai ser posta em prática nem o grau de adesão pelos trabalhadores do Estado à passagem à actividade privada.  Isso vai depender da perspectiva de cada um sobre o benefício que terá ao deixar o trabalho no Estado e passar para a actividade por conta própria ou de outro  e do que vir que vier a suceder aos que primeiro se aventurarem a deixar a segurança do sector público da economia pelo privado. Se a reforma for bem planeada e posta em prática, é possível que Cuba venha a entrar em ciclo económico de desenvolvimento acelerado.


Se a reforma anunciada for bem sucedida, é previsível que Cuba inicie também processo de mudanças constitucionais que libertem a sociedade cubana da tutela de quem fez a revolução cubana e foi capaz de a consolidar.
Entende-se que os revolucionários que foram capazes dessa tarefa em condições tão difíceis de bloqueio económico, que persiste, e de invasão militar pelos EUA  receiem,  nessas condições que em grande parte subsistem,  pôr fim à tutela  sobre a política cubana. Mas há que ter em conta que nada é eterno, nada fica para sempre; a mudança é, em tudo, lei universal. A geração que fez a revolução inevitavelmente vai morrer.  A melhor garantia da salvaguarda dos valores da revolução cubana do início da década de 1960 é entregar ao povo, sem tutela, a liberdade de, por voto secreto, universal e periódico, eleger quem, por período certo e limitado, deve exercer o poder político. O povo cubano, que é dos mais instruídos do mundo, se se sentir viver em sociedade com economia em desenvolvimento,  dificilmente deixará, nessas condições, fugir o poder político das suas mãos. E o governo dos EUA, não obstante a sua vontade, que não abandonará tão cedo, de dominar politicamente Cuba, terá grande dificuldade em a dominar politicamente.
Não se pode deixar de ter em conta que a democracia é invenção política de sociedades com  razoável nível de riqueza gerada pelo comércio na antiguidade clássica. Tendeu a apagar-se depois quando o nível de riqueza diminuiu  fortemente. Ressurgiu com o incremento da riqueza proporcionado pelo desenvolvimento industrial e o avanço da instrução necessária a essa produção, e está a progressivamente a alargar-se à medida que  o desenvolvimento da riqueza se alarga pelo mundo.
Cuba tem população com elevado nível de instrução. Falta-lhe criar as condições para que tenha razoável nível de riqueza. Os revolucionários cubanos ainda vivos parece estarem, com as reformas económicas anunciadas, a querer que se criem as condições para que o povo cubano agarre o destino político do seu país nas mãos. Espera-se que sejam bem sucedidos, que, além do mais, a esse povo se deve o significativo  avanço dos países da América Latina para a emancipação dos EUA, a libertação do povo angolano do controle político pelo regime sul africano, a  independência da Namíbia e a libertação da África do Sul do regime de apartaide.

É experiência política a seguir com atenção, que, depois do colapso da União Soviética,  dos outros países do chamado socialismo real e da opção da China pelo sistema capitalista sob tutela do seu Partido Comunista, torna-se necessário procurar teorizar e delinear novo modelo para sociedades humanas mais justas e solidárias.

A inteligência é capacidade Humana e de todos os animais

A inteligência é capacidade humana e de todos os animais, podendo o  princípio da inteligência  estar em tudo o que existe.
António Bica

Por inteligência tem-se entendido a capacidade humana de raciocínio abstracto, isto é a possibilidade do cérebro figurar uma ou mais  situações ou realidades imaginadas e de as relacionar com o observado no mundo exterior, ou entre si.  A capacidade de raciocínio abstracto é usada para melhor solucionar os problemas de sobrevivência que se  vão pondo na vida de cada ser,  incluindo através do melhor entendimento do mundo. Para isso é  muito útil, porque impele os humanos a observar todo o mundo exterior e leva-os a raciocinar sobre ele, procurando também explicar a sua origem e o seu funcionamento.
 Por outro lado, do  raciocínio abstracto, que possibilita figurar a ideia de si, nasce o conhecimento de si mesmo por cada ser dele capaz. É a capacidade  de ter consciência de si, isto é  de conhecer que é ser distinto de todos os outros e de tudo o mais que existe.
 A capacidade de raciocínio abstracto era entendida como exclusiva dos humanos e pelas religiões considerada  consequência e prova da sua criação divina.
Hoje, por observações cuidadosas e experiências, é certo que outros animais, especialmente  macacos, são capazes de raciocínio abstracto, embora talvez não tão complexo como o dos humanos, o que, nomeadamente, lhes possibilita  ter consciência de si e produzir e  usar instrumentos, mesmo que rudimentares, para  melhor resposta aos desafios que a natureza (incluindo os outros animais) lhes põe.
 Mas  inteligência não é apenas capacidade de raciocínio abstracto. Todos os animais, perante cada  problema que enfrentam (ameaça, frio, chuva, fome, sede e outros), revelam capacidade para tentar superá-lo, lutando ou fugindo, procurando abrigo, buscando alimento ou água.  Esses comportamentos  são inteligentes, embora não resultem de raciocínios  abstractos, isto é de prévia e antecipada figuração de cada problema e da mais adequada resposta a dar-lhe, incluindo antecipada reunião dos meios (nomeadamente instrumentos) para o efeito. A generalidade dos animais parece ser apenas capaz de agir com inteligência  quando os problemas que precisa de solucionar se lhes põem. Se um animal não tiver capacidade para os resolver, a sua vida será curta e não deixará descendência. Assim a selecção natural estimula o uso da inteligência. Os seres que melhor a usarem  maior capacidade têm de sobreviver por mais largo tempo e consequentemente de deixarem descendência.
A inteligência de cada ser animal é possibilitada por órgão específico, o cérebro, que dispõe de meios de comunicação com as restantes partes do respectivo corpo para lhes transmitir comandos  e receber informações, incluindo dos efeitos sobre elas do mundo exterior.
Do referido resulta que inteligência é a capacidade de cada animal, incluindo o homem,  para dar a melhor resposta a cada um dos problemas que continuamente enfrenta.  Em síntese pode dizer-se que inteligência é a capacidade de cada animal para escolher o melhor para si.
As pessoas de considerada boa formação moral,  perante esta definição de inteligência, tendem a reagir como sendo justificação de egoísmo. Mas não é. Muitos animais,  especialmente os humanos, são seres gregários que precisam da colaboração dos outros para, em primeiro lugar,  se reproduzir, e, depois,  melhor viver, isto é melhor defender a sua existência.  Por isso, cada um, a par de pulsões para  defesa da sua individualidade, o que é necessário para se manter vivo, sente pulsões para bem se relacionar com os outros, o que é necessário para que a espécie se reproduza e para  defesa da sua individualidade por cooperação.
É necessário o justo equilíbrio entre os comportamentos de cada ser para a necessária defesa da sua individualidade  e os adequados à  indispensável cooperação com  os outros para se assegurar a reprodução e a melhor defesa colectiva, que é também defesa de cada indivíduo.  Cada animal nasce geneticamente programado para manter esse equilíbrio. Se houver desequilíbrio, o tempo de vida do indivíduo tende a encurtar-se e assim a selecção natural a eliminá-lo.
Também cada planta procura o melhor para ela, embora não disponha de órgão capaz de centralizar informações das suas diferentes partes e, através delas, do mundo exterior, e de as processar e emitir comandos com base nelas. Mas as suas  partes são sensíveis ao mundo exterior, nomeadamente à luz, ao frio, à água, e, por meio de compostos químicos orgânicos complexos que produz, assegura a comunicação entre elas.
 Por isso, quando a semente germina, as suas raízes procuram a terra e as folhas o ar e a luz. Esse comportamento não é de natureza estrutural distinta do do animal que procura comida para se alimentar ou abrigo para se proteger das intempéries. E, se uma planta nasce sem capacidade para encaminhar as suas raízes para a terra ou as folhas para o ar e a luz, a selecção natural  eliminá-la-á.
Os chamados seres inanimados, embora nada haja que se não mova, tudo girando e fluindo, que o movimento parece ser constante universal de que resulta o tempo, como interagem?  Observando, vemos que os seres que designamos por não animados o fazem da forma que melhor a eles parece adequar-se, isto é mais lhes convém:  Os corpos celestes giram entre si segundo leis constantes; os compostos químicos cristalizam sempre sob  certas formas; os elementos simples (hidrogénio, oxigénio, carbono e os outros) associam-se  de modos sempre iguais se as condições forem as mesmas; os protões, os neutrões e os electrões organizam-se entre si sempre segundo formas certas;  os elementos  mais simples, embora constituam realidades ainda mal compreendidas, parece obedecerem ao mesmo tipo de constâncias.  Assim agem porque de outro modo deixam de ser o que são.
O que os faz assim agir, procurando a melhor organização para eles, não será  princípio inteligente universal comum a tudo o que existe?
Se assim for, a inteligência humana  corresponderá ao constante avanço organizativo  de tudo o que existe, complexificando o princípio inteligente universal. Tudo o que existe, ao tornar-se progressivamente cada vez mais complexo, potenciará esse princípio inteligente universal até capacitar, pela inteligência abstracta, os humanos  a debruçarem-se sobre si mesmos e sobre o universo de que fazem parte.
Outra questão é se os humanos alguma vez alcançarão o pleno conhecimento do universo, isto é de tudo o que existe.  Não parece possível, que, sendo os humanos parte do universo, isso  estará fora do seu alcance. Compreender implica abarcar, o que os humanos parece que nunca poderão conseguir  com o infinito universo de que são ínfima parte.  À parte parece estar vedado compreender, abarcar o todo.


Poder-se-á considerar que este entendimento da inteligência corresponde à aceitação de deus imanente, isto é de deus inteligência do universo, pois, sendo a suprema complexidade, englobando  a complexidade de todos os seres, incluindo os humanos, corresponder-lhe-á necessariamente a suprema inteligência que tudo compreende geradora da máxima auto-consciência, concepção que se contrapõe-se à de deus transcendente independente do universo, dele criador e nele presente, que e é a das religiões monoteístas.
Mas a ideia de deus imanente não parece aceitável, que isso implicaria o conjunto do universo ser dotado de  inteligência distinta da de cada ser e haver no universo órgão específico  produtor de inteligência e consciência e mecanismos capazes de fazer chegar os seus comandos a cada parte da sua infinitude, que, pelo que se pode inferir do que se observa, não existem.
A ideia de deus transcendente, isto é pré-existente ao universo, dele criador e distinto, responde à necessidade humana, que resulta da capacidade de raciocínio abstracto, de explicar o mundo exterior e consequentemente o universo. Porque os humanos, sendo ínfima parte dele, são incapazes de o compreender, embora o vão entendendo cada vez mais, em vez de modestamente aceitar essa realidade, têm tentado explicá-lo figurando a existência de deus como dele criador apesar de aceitarem a sua incapacidade de explicar deus.
Os defensores da ideia de deus (transcendente  ou imanente) usam o argumento utilitarista, como se o universo existisse por causa dos humanos, da necessidade de haver para eles regras de conduta ditadas por deus, embora só a certos privilegiados, para assegurar a harmonia entre os homens. Além de não ser racional a ideia de deus privilegiar alguns homens, com a sua comunicação, mesmo que indirecta (a teologia defende que deus não comunica directamente com os homens), entendendo-se o universo criado por deus, é ele necessariamente regido pelas melhores leis, bastando por isso aos humanos, para assegurar a harmonia,  procurar progredir no conhecimento delas.  Por outro lado, tendo deus necessariamente criado o universo com as melhores leis, isso exclui a possibilidade de milagres entendidos como excepção às leis naturais por intervenção de deus, pois não podem deixar de ser as melhores, portanto insusceptíveis de correcção.
A capacidade humana de raciocínio abstracto é que é geradora da ideia de deus imanente ou transcendente. O avanço dos humanos no conhecimento do universo, embora modestíssimo como é e seguramente sempre será, está a levá-los a progressivamente aceitar a sua natural incapacidade para completamente o compreender sem deixar de sempre querer progredir no caminho do seu conhecimento.