segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Notas sobre o mundo islâmico (3)

Notas sobre o mundo islâmico (3)

António Bica

Foi curta a dinastia dos califas Omeidas que tinham capital em Damasco da Síria. Em 750 Abu Abas, descendente de Abas tio do profeta Muhámade fundador da religião islâmica, então governador de uma região da Pérsia, pôs fim à dinastia Omeida, matou os seus descendentes, com excepção de um, que conseguiu fugir para a Espanha, e passou a capital do califado para Bagdade, na margem do rio Tigre, na Mesopotâmia, hoje o Iraque. O mais notável califa abássida foi Harum Alrachide referido em muitos dos contos das Mil e Uma Noites.
Pouco a pouco o poder político no extenso território do califado foi-se diluindo. A Espanha islâmica, o Al-Andalus, tornou-se independente sob a chefia do último omeida, Abderramã, que conseguira fugir da matança da família pelos novos califas abássidas. A região da Mauritânia separou-se do califado de Bagdade, passando a ser governada por descendentes de Fátima (filha de Muhámade) e de Ali, que se intitularam califas. Esta dinastia, chamada Fatimida, alargou o domínio até ao Egipto que governou até ao fim do século 12.
No século 10 os califas de Bagdade, nas extensas regiões do califado, já só detinham poder simbólico. Os turcos seldjúcidas haviam descido da região de Samarcanda para as terras persas do Korassã. Tomaram depois Bagdade que governaram com o título de sultões sem destronar os califas Abássidas, cujo poder se tornou mera fonte de legitimação para os senhores dos múltiplos territórios islâmicos autónomos que não se haviam proclamado califados.
O Império Romano do Oriente manteve a capital em Constantinopla e o largo território da Ásia Menor, hoje Turquia, até à chegada dos turcos seldjúcidas a partir do Korassã, na Pérsia, que, pouco a pouco, se apoderaram do território da Ásia Menor até então parte do Império Romano do Oriente.
Entretanto na Europa ocupada pelos bárbaros germânicos desenvolveu-se a produção agrícola, as cidades começaram a desenvolver-se, o comércio pouco a pouco renasceu. Este desenvolvimento da economia europeia fez ressurgir a procura dos míticos bens do oriente (da Índia e da China), que durante o Império Romano chegavam em abundância à posse dos mais ricos.
No governo dos califas Abássidas o Médio Oriente prosperou com o comércio, primeiro entre o oriente e o Império Romano do Oriente e depois com a Europa Cristã por intermediação das repúblicas marítimas e comerciais italianas: Veneza, Génova e outras. Esse comércio era a base da prosperidade económica do mundo islâmico do Médio Oriente nas Mil e Uma Noites, a principal obra literária árabe da Idade Média, os mercadores são das mais frequentes personagens dos contos.
Na Espanha o califado de Córdova consolidou-se e prosperou na agricultura, no artesanato, na construção, na literatura e nas demais artes, até ao princípio do século 11, em que se desintegrou nos pequenos reinos de Taifas demasiado fracos para resistir ao avanço dos reinos cristãos do norte. 
Pelo fim do século 11 e início do século 12 o mundo islâmico sofreu a primeira grande ofensiva militar da Europa cristã: Na Península Ibérica os reinos cristãos estenderam-se para sul e os reinos cristãos da Europa Central e da Itália invadiram a faixa litoral do Mediterrâneo Oriental com as Cruzadas, do que em próximo texto se escreverá.

Notas sobre o mundo islâmico

Notas sobre o mundo islâmico (4)

António Bica

Com o fim do século 11 e o início do século 12, pela altura em que Portugal ainda se não autonomizara de Leão e Castela e era governado pelo Conde D. Henrique e a mulher D. Teresa, o mundo  islâmico entrou em crise.
Da região de Samarcanda, nordeste do actual Irão, os povos turcos convertidos ao islamismo desceram para o território da Pérsia islâmica, estenderam-se até à Mesopotâmia e avançaram para a Ásia Menor (actual Turquia) cujo território conquistaram ao Império Romana do Oriente com capital em Constantinopla.
O poder dos califas de Bagdade enfraqueceu, tornando-se progressivamente pouco mais que nominal e referência de unidade religiosa. Entretanto a Europa cristã submetida a Roma cresceu em população.
O comércio desenvolveu-se progressivamente e as cidades, que haviam a maior parte da população em consequência das invasões bárbara, cresceram pouco a pouco.
As cidades autónomas da Itália prosperaram com o comércio no Mar Mediterrâneo, trazendo para a Europa as mercadorias orientais que chegavam em caravanas aos portos mediterrânicos islâmicos (Alexandria, Tiro e outros).
A cobiça europeia pelo rico comércio desses portos levou os dirigentes europeus, instigados pelo papa, a tentar apoderar-se dele com o pretexto da conquista de Jerusalém.
Foi essa a semente das sucessivas cruzadas, que levaram à conquista de Jerusalém e dos principais portos do oriente mediterrânico. Iniciaram-se pelo começo do século 12 e prolongaram-se até meados do século 13, quando a contra ofensiva islâmica expulsou os cruzados.
Nos meados do século 13 os mongóis invadiram a Pérsia e chegaram à Mesopotâmia, onde puseram fim ao califado. Entretanto os turcos haviam conquistado a Ásia Menor, consolidado aí o seu poder e islamizado e aculturado a população, e, com o fim do califado, alargaram progressivamente o seu poder à Mesopotâmia, à Síria, ao Egipto e à parte oriental do norte de África, sem terem aculturado as populações desses territórios.
A Pérsia resistiu ao domínio turco, mantendo a independência política e autonomizando-se religiosamente com a adesão do poder à corrente religiosa xiita, que se tornou a dominante na Pérsia (hoje Irão), afastando-se da corrente religiosa sunita seguida pelos turcos.
Com a derrota dos cruzados e a unificação política islâmica sob o domínio turco, o comércio voltou a prosperar no mundo islâmico trazendo as mercadorias orientais para os portos mediterrânicos do oriente, onde as cidades italianas e depois catalãs os compravam para a Europa.
A prosperidade económica e a estabilidade política do mundo islâmico sob domínio turco levou os turcos a completar a conquista, nos meados do século 15, do que restava do Império Romano do Oriente na península balcânica, o que culminou com a queda de Constantinopla, que passou a ser a capital do Império Turco.   

A religião islâmica

A religião islâmica e a tolerância


António Bica

É frequente cristãos afirmarem que a religião islâmica é intolerante e fanática. O fanatismo e a intolerância não é da religião islâmica nem da cristã, mas dos chefes islâmicos e dos chefes cristãos que demasiadas vezes fanatizam os crentes para servir os seus interesses de domínio social, económico e político.
Se o islão se expandiu no século 7º e se alargou por todo o sul mediterrânico do Império Romano foi porque praticava a tolerância. Se os chefes religiosos e políticos do islão tivessem sido então intolerantes na Península Ibérica não restariam, depois da conquista dela cristãos. E restaram. A grande maioria do povo da Península Ibérica manteve-se cristão até à reconquista, cerca de 600 anos depois.
O que aconteceu na Península Ibérica aconteceu nas demais regiões conquistadas pelos islâmicos ao Império Romano cristão. Ainda hoje cerca de 10% da população no Egipto, na Palestina, na Síria e no Iraque é cristã apesar destas regiões terem sido conquistadas pelos islâmicos no século 7º. E no Líbano é cristã cerca de 50% da população.
A mesma tolerância foi usada com as populações islâmicas da Península Ibérica depois da reconquista cristã? Não foi. No século 15 e no século 16 foram expulsos de Portugal e da Espanha todos os que, sendo islâmicos, não se converteram ao cristianismo.
Quem fez as guerras das Cruzadas entre o fim do século 10 e o fim do século 13? Foram os cristãos europeus contra os islâmicos, na terra dos islâmicos, não os islâmicos contra os cristãos.
Apesar da Europa ser intolerante contra os islâmicos e outras religiões nos séculos 15, 16 e 17, os islâmicos turcos conquistaram os territórios balcânicos, na Europa, a começar por Constantinopla, capital do Império Romano do Oriente. Ocuparam a Grécia, a Bulgária, a Roménia, a Sérvia, o Montenegro, a Croácia, a Eslovénia. Só no século 19 e princípios do século 20 essas regiões se tornaram independentes dos turcos islâmicos, mantendo-se as suas populações cristãs, como hoje são.
Se o cristianismo se manteve nessas terras durante tantos séculos, apesar de poder político ser islâmico, foi porque os islâmicos eram tolerantes e não fanáticos religiosos.
O discurso de intolerância islâmica, que cada vez mais se houve na Europa e nos Estados Unidos da América do Norte, não serve a Humanidade, mas para justificar guerras e agressões contra os países islâmicos.   

O mundo islâmico


O mundo islâmico (2)

António Bica

O extenso mundo islâmico  em 100 anos  alargou-se dos Pirinéus à Índia, incluindo a Espanha, o norte de África, o Médio Oriente (com excepção da Turquia), a Pérsia (hoje Irão) até às margens do rio Indo, na Índia.
Neste longo espaço as chefias árabes e convertidas ao islamismo forma muito tolerantes. Cada povo conquistado podia seguir a sua religião (com maior tolerância para os cristãos e os judeus), gozar de larga autonomia e conservar os seus costumes.
As trocas comerciais que os bárbaros germânicos do norte eliminaram na Europa que ocuparam mantiveram-se assinadas no mundo político do islão. Os muito dirigentes políticos, militares e administrativos que se tinham acabado de converter ao islamismo para conservar poder e riqueza continuaram a cultivar o latim na Espanha e no norte de África até à Líbia e o grego na Líbia e no Médio Oriente e a estudar os filósofos gregos e latinos, com especial destaque para Aristóteles. Os originários da Pérsia e da Índia trouxeram para o mundo islâmico os avançados conhecimentos matemáticos da Índia.
O Centro político deste mundo islâmico estabeleceu-se, com os califas Abássidas, em Bagdade, hoje capital do Iraque no largo e fértil Vale dos rios Tigre e Eufrates. O mundo islâmico nos séculos 7º, 8º, 9º e 10º era espaço de liberdade, de desenvolvimento de ideias, de alargamento do conhecimento e sobretudo de intensa actividade comercial entre a Índia e a China (a oriente) e a Europa ocupada pelos bárbaros germânicos (a ocidente). Esse comércio de pimenta, de canela, de incenso, de seda, de benjoim, de almíscar, de panos finos, porcelana, de lacas tornou o mundo islâmico próspero e desenvolver a sua cultura o que sempre acontece quando a riqueza cresce e se estabiliza.
Na Europa de então a parte rica e culta era a Espanha islâmica com o califado de Córdoba. Aí iam estudar os mais curiosos sábios da Europa do Centro e do norte.     

Evolução política no Paquistão

A evolução política no Paquistão e as dificuldades crescentes dos E.U.A. no Médio Oriente

António Bica

Em 3 de Novembro de 2007 o general Pervez Musharraf, Presidente e Chefe do Exército do Paquistão, suspendeu a aplicação da Constituição, demitiu os juizes do Tribunal Supremo, reprimiu manifestações de protesto e mandou prender mais de meia centena de pessoas, entre elas o presidente dos advogados paquistaneses.
O governo norteamericano do presidente Bush reagiu com cautela e, na linha dos norteamericanos, fizeram o mesmo o governo inglês e o chefe da diplomacia da União Europeia, Xavier Solana.
Porque reagiram os norteamericanos com cautela?  
Porque o general Pervez Musharraf do Paquistão tem sido o grande aliado do governo dos E.U.A.N. contra a militância religiosa mussulmana de largas camadas populacionais paquistanesas que levou os Talibans ao poder no Afeganistão e se tem vindo a opor com persistência à estabilização política no Afeganistão e, no Paquistão, ao domínio político do general Pervez Musharraf.
O Paquistão é a parte da Índia onde a maioria indianos de religião islâmica, quando a Índia se libertou do domínio colonial inglês, optou por criar um estado independente que designou por Paquistão. Essa decisão levou a forte reacção dos indianos não mussulmanos e dos mussulmanos, com expulsão de grande número de habitantes de minorias religiosas, quer na parte que passou a ser o Paquistão, quer na parte restante, a Índia actual.
Embora as religiões, em regra, assentem sobre princípios de paz [lembre-se que a saudação corrente islâmica é salam (paz) e a cristã também (a paz seja contigo)], a verdade é que é à volta delas que se acendem os maiores ódios e se desencadeiam as mais vastas matanças. A razão disso assenta nas estruturas religiosas de poder que são levadas a combater pela submissão e o controle das consciências das pessoas e pela ideia, nas religiões monoteistas, de que os seus fundamentos religiosos assentam na palavra de Deus.
Não se podendo Deus enganar nem corrigir, por ser omnisciente, cada relegião acusa as outras de serem falsas. Por todas estas razões a população paquistanesa, que é islâmica, conserva, desde a independência, há cerca de 60 anos, fortes sentimentos de hostilidade às outras religiões especialmente a indú e as cristãs.
O governo dos E.U.A.N., desde que, na década de 1950, a Índia integrou a frente dos países do terceiro mundo recentemente libertados do domínio colonial que lutavam pelo desenvolvimento e a equidistância em relação aos E.U.A.N. e à União Soviética, passou a manter distância em relação à Índia e a encorajar, embora de modo não ostensivo, a hostilidade de base religiosa do Paquistão em relação à Índia. E, quando a União Soviética cometeu o erro, no início da década de 1980, de enviar o exército para o Afeganistão a combater ao lado dos partidos progressistas, então no poder, contra os partidos religiosos conservadores e obscurantistas, o governo dos E.U.A.N. deu todo o apoio em dinheiro, informação e armamento ao Paquistão para reforçar o combate ao regime progressista afegão, recrutando para isso jovens combatentes fundamentalistas em todos os países islâmicos, e, mais do que isso, fornecer ao Paquistão conhecimentos, meios financeiros e tecnológicos para construir bombas atómicas.
Com a destruição das torres em Nova Iorque, em 11 de Setembro de 2001, o governo dos E.U.A.N. inverteu a política de apoio ao islamismo fundamentalista, extremista e belicoso, quer porque a União Soviética colapsara em 1990 e portanto já não precisava dele para atacar os soviéticos, quer porque atribuiu a destruição das torres novaiorquinas (supõe-se que com razão) ao islamismo radical organizado à volta da Alcaida. Seguiu-se, em retaliação, a guerra no Afeganistão pelos E.U.A.N., que está longe de estar ganha. Depois, em Março de 2003, foi a guerra no Iraque (para controlar as grandes jázidas de petróleo do país), que está também longe de estar ganha.
O governo dos E.U.A.N. obrigou o presidente do Paquistão a dar-lhe apoio na guerra contra o fundamentalismo islâmico no Afeganistão com a ameaça de que, se o não fizesse, faria, com ataques militares, regressar o país à idade da pedra.
O Pervez Musharraf foi assim obrigado a seguir orientação política contra a corrente radical fundamentalista islâmica dominante no país. As contradições foram por isso crescendo. Musharraf estava, em Outubro de 2007, em risco de perder o poder. Optou por o não correr, suspendendo a Constituição, prendendo os adversários políticos, reprimindo as manifestações de protesto.
O governo dos E.U.A.N., apesar da medida ostensiva contra os princípios democráticos, reagiu com brandura. Não pode de deixar de se mostrar preocupado com a suspensão da Constituição, mas não condenou o golpe.
Se Pervez Musharraf for afastado o poder no Paquistão e os fundamentalistas islâmicos controlados pela Alcaida ou nela inspirados acederem a ele, o governo dos E.U.A.N. estará em grandes dificuldades. A Alcaida passará a dispor de poderoso armamento nuclear, calculando-se que com cerca de 35 bombas atómicas.
As aventuras “cowboy” de Bush no Médio Oriente, neste princípio do século 21, poderão estar a dar para o torto. Israel que se cuide.  A sua arrogancia de há 60 anos na Palestina poderá vir a sofrer resposta amarga. E, pior do que isso, a intolerância de raiz religiosa no mundo poderá vir a pôr em causa os princípios: da democracia, da liberdade de pensamento, de expressão, de religião, de igualdade entre homens e mulheres.

O Irão está a revelar transformação política

O Irão está a revelar transformação política indiciadora de mudanças


António Bica

            A última eleição presidencial no Irão revelou estar o país politicamente activo, confrontando-se duas tendências: uma defensora dos valores religiosos, na concepção tradicional, receosa de mudanças e de abertura ao exterior, temerosa da influência das mulheres na vida pública e na economia, procurando manter a tutela religiosa sobre o regime e talvez reforçá-la; outra que quer modernizar o Irão, que as mulheres tenham no país função igual à dos homens, abri-lo ao mundo, aprofundar as instituições democráticas, reduzir e talvez acabar com a tutela político-religiosa sobre o regime.

            Como se sabe, o Irão foi, desde 1953, ano em que a CIA, em colaboração com os serviços secretos ingleses, derrubou o regime democrático então chefiao por Mossadegh, até 1979, em que o regime autocrático do Xá Reza Pahlevi foi derrubado por revolução popular, governado sob tutela dos EUA.
            Desde 1979 o Irão tem sido fortemente hostilizado pelos governos dos EUA. O actual presidente Obama baixou o nível de agressividade política, mas mantém-na.
            O movimento revolucionário iraniano que instituiu a república em 1979 fundou-se na luta contra a injustiça social do regime autoritário e repressivo do Xá e o domínio económico e a influência cultural dos EUA. Para melhor mobilização popular contra o Xá e a influência dos EUA foi, pelo movimento revolucionário, feito apelo aos valores religiosos xiitas tradicionais.
            Com a vitória da insurreição popular, as estruturas religiosas, que tiveram função de relevo na mobilização e no enquadramento populares contra o Xá, passaram a liderar o novo regime republicano.

            Como se sabe, o Irão é maioritariamente de religião islâmica xiita, que diverge da corrente maioritária sunita por sempre ter defendido que a liderança política e religiosa islâmica deve pertencer aos descendentes do profeta Maomé pela sua única filha, Fátima.
No Islão as lideranças política e religiosa sempre se confundiram sob a mesma chefia por a religião ter tido origem nos ensinamentos do profeta Maomé, que era simultaneamente chefe político e religioso dos que acreditavam na sua doutrina, que muito cedo se retiraram para a pequena cidade árabe de Medina, onde Maomé passou a ser simultaneamente chefe político e religioso.
Com a morte de Maomé, que deixou um único descendente, a sua filha Fátima, foi, entre os seus seguidores mais próximos, muito discutida a sua sucessão. Por não ter então descendente masculino, mesmo que neto, optou a maioria dos seguidores do profeta por escolher, para chefiar os crentes islâmicos, um de entre eles.
            A corrente minoritária não se conformou e defendeu que a chefia da comunidade dos crentes islâmicos, que passaram a designar por Umma, deveria caber aos descendentes masculinos do profeta Maomé. Quando o filho de Fátima, neto do profeta, Hussein, se tornou adulto, tendo havido escolha de novo chefe político e religioso dos crentes, Califa na designação árabe, os partidários de Hussein consideraram que não havia que fazer nova escolha por Hussein ser chefe político e religioso natural por direito hereditário.
O desentendimento deu origem a guerra entre os partidários de Hussein e do novo califa escolhido pela facção maioritária. Hussein foi derrotado e morto e massacrada toda a sua família na tentativa de eliminar definitivamente a corrente que defendia que só os descendentes do profeta têm legitimidade para liderar política e religiosamente a Umma, comunidade dos crentes.
            Esta corrente política e religiosa passou a designar-se por xiita, que, tendo embora sido muito enfraquecida por essa derrota e o massacre, retomou vigor no Irão, a antiga Pérsia, que, tendo antiga cultura própria, embora tenha aceitado o islamismo, se opôs tenazmente a ser dominada política e religiosamente pelo califado que teve sede primeiro em Damasco e depois em Bagdade.
            Porque foram chacinados todos os descendentes do profeta, os xiitas consideram que a liderança politica e religiosa da comunidade dos crentes, está desde então vaga até um dia, no fim dos tempos, ressurgir algum miraculosamete salvo descendente do profeta para finalmente repôr a legitimidade do poder político e religioso na comunidade dos crentes no Islão. É, curiosamente, um mito como em Portugal foi o de D. Sebastião a ressurgir em manhã de nevoeiro para animar os que não queriam a integração de Portugal na Espanha.
            O xiismo serviu assim os governantes do Irão que desse modo legitimaram a sua insubmissão política e religiosa ao califado de Bagdade.
            Até à vinda, no fim dos tempos, do chefe legítimo descendente do profeta, a liderança política e religiosa da comunidade dos crentes está, para os xiitas, vaga, não devendo por isso concentrar-se as duas lideranças numa só pessoa por só o descendente do profeta que há-de um dia vir ter legitimidade para isso.
            Assim, no xiismo, ao contrário do sunismo, o poder religioso não deve coincidir com o poder político, até que um dia ressurja um descendente do profeta.

            Com a revolução no Irão, em 1979, apesar da forte influência nela do poder religioso, não se assumiu ele como titular do poder político. Como a monarquia persa, com o último Xá derrubado em 1979, se havia politicamente submetido ao poder dos EUA, assim se descredibilizando, a revolução aboliu-a e institucionalizou o regime republicano que procurou legitimar com a sua actual Constituição, o que é revolucionariamente inovador no mundo islâmico, com definição do poder por eleições, por voto universal e periódico, de quem exerce o poder e reconhecimento da igualdade entre homens e mulheres em consequência do papel central da única filha, Fátima, na transmissão biológica do poder.

            Por a revolução de 1979 ter tido forte participação laica, a liderança religiosa, procurando opor-se à laicização da sociedade, recorreu a figura semelhante
à adoptada em Portugal, pela Constituição de 1976, com o Conselho da Revolução, para tutelar o regime e evitar que caísse em desvios.

            No Irão essa função tutelar passou a ser desempenhada por conselho de religiosos eleitos que designam um chefe. A corrente política que actualmente quer modernizar o Irão confrontou-se em 2009, nas eleições do presidente da República, com a corrente que quer manter o país amarrado aos valores religiosos tradicionais.
            A corrente inovadora não aceitou a derrota considerando que as eleições foram manipuladas e não livres. A que defende os valores religiosos tradicionais respondeu com repressão, que continua.

            Estão assim criadas condições para mudanças políticas no Irão. Quem vai ganhar o confronto nos tempos próximos não é seguro, podendo a força repressiva de que dispõem os tradicionalistas impor o seu domínio. Mas a prazo a sorte está lançada: os que se opõem à inovação e à abertura ao mundo estão seguramente derrotados. A tutela religiosa sobre a estrutura política actualmente definida no Irão por eleição universal dificilmente sobreviverá.

           


A atitude dos EUA e da UE em relação ao Irão

A atitude dos EUA e da UE em relação ao Irão tem paralelo com a que foi adoptada em relação ao Iraque
 António Bica

            As últimas eleições presidenciais no Irão mostraram que o país está política e socialmente activo. A população, especialmente a que cresceu sob a República Islâmica do Irão que sucedeu em 1979 à ditadura do Xá Reza Pahlevi controlada pelos EUA, é hoje muito mais instruída. Com a república islâmica o Irão tem nova constituição na linha da do regime constitucional que em 1953 a CIA derrubou impondo o Xá como rei absoluto e por via dele assegurando o controlo do petróleo iraniano.
            Ao contrário do que a máquina de informação global dos EUA em que muitos judeus têm poderosa influência quer fazer acreditar à opinião mundial, o Irão não é uma ditadura militar. É regime republicano constitucional embora confessional islâmico xiita, em que o poder a todos os níveis é conferido por eleições periódicas, incluindo dos membros do Conselho Religioso que elegem entre si o supremo líder religioso.
            O Conselho Religioso tem no Irão função política constitucional semelhante
à que teve em Portugal o Conselho da Revolução a seguir ao 25 de Abril, garantindo que os princípios e os valores políticos defendidos pela revolução não sejam subvertidos. E as mulheres não são discriminadas no Irão, sendo maioritária nas escolas, incluindo nas universidades, e em várias profissões. A situação política e social no Irão é muito mais avançada do que a existente na generalidade dos países islâmicos sunitas que os EUA protegem, como a Arábia Saudita, o Egipto e o Paquistão. O Irão está a avançar política e socialmente em consequência do desenvolvimento do ensino generalizado em todos os graus a toda a população e do consequente desenvolvimento económico. Esse desenvolvimento gera tensões sociais e políticas com os consequentes avanços e recuos.
            Agora parece estar o Irão mais progressista em fase de recuo. As forças mais conservadoras do ponto de vista religioso e político estão a procurar refrear a evolução.
            Os EUA e a União Europeia não parecem estar a entender o processo político do Irão, seguindo as intransigentes posições de Israel, que dispõe de numerosas bombas atómicas e defende a destruição por bombardeamento das instalações nucleares que o Irão sempre afirmou destinarem-se a fins pacíficos em conformidade com o Tratado Internacional de Não-Proliferação Nuclear que subscreveu.
            Os últimos desenvolvimentos do caso respeitam ao uso de material nuclear para fins médicos, sobretudo para tratamento de tumores cancerosos, de que o Irão não dispõe. Porque é necessário que para isso o material nuclear seja enriquecido a 20%, muito longe dos 90% necessários para a produção de bombas atómicas, percentagem essa superior à necessária para produção de electricidade, o Irão propôs que lhe fosse fornecido, em pequenas quantidades, em troca de material nuclear enriquecido a 3,5% que tem estado a produzir em proporção das pequenas quantidades enriquecidas a 20% necessárias para fins médicos.
            Como os EUA e a UE querem privar o Irão do material radioactivo de que dispõe propuseram em 21 de Outubro de 2009 que o Irão enviasse previamente 75% do material radioactivo enriquecido a 3,5%, para só depois receber material radioactivo enriquecido a 20% se provasse sem lugar a dúvidas não ter intenção de o utilizar para fins militares, prova que, sendo de facto subjectivo e negativo, é impossível de fazer. O Irão não aceitou as condições e em 7 de Fevereiro de 2010 iniciou procedimentos para obter material radioactivo enriquecido a 20% para ser usado em fins médicos. Seguiu-se a habitual negociação liderada pelos EUA e a UE para impôr no Conselho de Segurança da ONU sanções contra o Irão. A Rússia, provavelmente a troco de concessões estadunidenses e europeias, poderá, embora não seja certo, viabilizar as sanções. A China parece estar mais relutante mas não é impossível que ceda em troca de concessões que se lhe afigurem vantajosas. Israel, que sempre se recusou com o beneplácito dos EUA a cumprir todas as resoluções do Conselho de Segurança da ONU, para restituir aos palestinianos a terra que ocupa, assiste ao desenrolar das pressões políticas para enfraquecer o Irão, porque o Irão no mundo islâmico, apesar de religião xiita e de os palestinianos serem sunitas, é o mais destacado e firme defensor do direito de os palestinianos viverem na sua terra, a Palestina, livres de Israel.
            A atitude dos EUA e da UE em relação ao Irão na questão da energia nuclear tem paralelo na que foi adoptada pelo presidente Bush em relação ao Iraque no início da década de 2000 – provem que não têm meios militares de destruição maciça para não haver guerra. Sendo a prova negativa, os EUA e a Inglaterra sempre a consideraram insuficiente, que o que queriam era ocupar militarmente o Iraque e apropriar-se do seu petróleo. Veremos o desenrolar no Irão dos próximos acontecimentos, embora se possa ter como muito provável que nem os EUA atacarão militarmente o Irão nem autorizarão Israel a fazê-lo. A amarga lição da insensata guerra contra o Iraque parece ter sido aprendida.