segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Revolução Republicana

A Revolução Republicana e a evolução do regime até à sua queda em 1926
António Bica 
Desde que, no século 18, se procurou generalizadamente submeter à crítica da razão o que se tinha por imutável e indiscutível, o poder dos reis, que até então era absoluto, indiscutível e ungido pelo poder religioso, e passou desde então a ser questionado, deixando de se aceitar que o poder de governar se legitimasse pela alegada vontade de Deus interpretada pelas estruturas religiosas.
Os que então questionaram a legitimidade, assim entendida, do poder dos reis, consideravam que todos os homens são iguais em direitos e deveres, propondo que se racionalizasse a legitimação do poder político, isto é o poder de decidir sobre o que diz respeito a todos, passando a defender que esse poder devia ser conferido pela vontade maioritária dos cidadãos expressa livre e periodicamente.
Isso é a democracia, que implica a liberdade de pensamento e de o exprimir pelos meios possíveis: reunião, manifestação, escrita, imagens e outros meios.
Então, nos fins do século 18 e princípios do 19 ( em Portugal na primeira metade do 19), não houve condições políticas para se eliminar de vez o poder dos reis, que, sendo hereditário, não resulta da escolha livre e periódica dos cidadãos, com isso não se respeitando completamente a democracia.
Assim mantiveram-se, em quase todos os países da Europa, durante o século 19, as monarquias, embora o poder dos reis fosse fortemente limitado pelas constituições. Em 1910,só a França e a Suíça tinham regimes republicanos.
Em Portugal, nos primeiros anos do século 20, o rei, então D. Carlos, subvertendo a Constituição em vigor, nomeou chefe do governo João Franco, que passou, sem programa de governo, com assentimento do rei, a governar o país autoritariamente em 1906, sem respeitar as liberdades democráticas básicas, fundamentalmente o direito de opinião e da sua expressão livre.
Isso fez crescer a vontade de acabar com a monarquia e alargar a influência do Partido Republicano nas maiores cidades do país e levou os partidos monárquicos ao descontentamento e a desinteressar-se de defender o poder régio.
 A consequência foi a queda da monarquia em 5 de Outubro de 1910, com o sangrento episódio da morte de D. Carlos em 1908 no Terreiro do Paço, sem que os partidos monárquicos a tivessem defendido. Portugal tornou-se então a terceira república europeia.
A revolução republicana de 5 de Outubro de 1910 aprofundou, em Portugal, a democracia, acabando com a dinastia de Bragança e com a atribuição ao rei do direito de exercer por herança o poder público, mesmo que limitado.
Mas a democracia não se conquista para sempre. Mantém-se por combate político permanente, nunca acabado, com avanços e recuos por vezes muito grandes, como foi o regresso do autoritarismo em 1926 que levou por 48 anos ao chamado Estado Novo e a reconquista da democracia com o 25 de Abril sob forma bem mais aperfeiçoada do que a do regime republicano de 1910.
O Partido Republicano Português, embora anterior ao Ultimato inglês, em 1890, que humilhantemente pôs fim à reclamada soberania portuguesa sobre as terras africanas entre Moçambique e Angola, que a Inglaterra anexou para constituir a sua colónia da Rodésia (hoje os países independentes Zâmbia e Zimbábuè), ganhou então projecção e tantos adeptos por se ter consequentemente oposto à sua aceitação pelo regime monárquico, que, em 31 de Janeiro de 1891, levou à falhada tentativa de proclamação da República no Porto, a que se seguiu forte repressão, incluindo contra os jornais republicanos frequentemente apreendidos e processados.
Desde então o apoio do povo urbano, especialmente em Lisboa e no Porto, foi crescendo. Para o Parlamento foram sendo eleitos cada vez mais deputados republicanos. A Câmara Municipal de Lisboa passou a ser republicana e em muitas outras havia cada vez mais vereadores republicanos. Os jornais republicanos passaram a ter  cada vez mais leitores.
Em contraste o regime monárquico afundava-se em negociatas entre elas o monopólio do tabaco e a administração do Crédito Predial Português e desprestigiava-se com os escandalosos adiantamentos à Casa Real, nunca reembolsados, especialmente a favor de D. Carlos.
Com o distanciamento do povo urbano, nomeadamente os operários, os trabalhadores dos serviços, os funcionários públicos de base, criaram-se condições favoráveis à revolução republicana. Os mais activos dessas camadas sociais integraram a Carbonária organizada secreta e hierarquicamente, devendo cada membro ter arma e ser capaz de a manejar para lutar pela implantação da República quando fosse tempo.
As camadas cultas (médicos, advogados, engenheiros, militares, jornalistas, professores, escritores, estudantes, artistas e outros), cada vez mais desiludidas com a monarquia, agrupadas nas lojas maçónicas, foram aumentando o número dos apoiantes do Partido Republicano Português.
Estavam criadas as condições para a revolução republicana.
O núcleo revolucionário organizado para actuar na noite de 3 para 4 de Outubro, composto por militares da Marinha e do Exército e integrantes da Carbonária, chefiado por, entre outros, Miguel Bombarda, prestigiado médico e professor de medicina, e o almirante Cândido dos Reis, descoordenou-se em consequência da imprevisível morte de Miguel Bombarda assassinado por um alienado no Hospital psiquiátrico de Rilhafoles, hoje Hospital Miguel Bombarda, pouco antes da hora marcada para o início da acção revolucionária e do mau funcionamento das comunicações com os navios da Armada no Tejo onde havia núcleos revolucionários e os quartéis de Artilharia 1 e de Infantaria 16. O almirante Cândido dos Reis, julgando a acção revolucionária perdida, suicidou-se. Os capitães de Artilharia 1 que  haviam saído com destacamento de militares apoiantes da revolução, convencidos de que o levantamento revolucionário militar fracassara, decidiram regressar ao quartel com os militares que comandavam. Na Rotunda, onde hoje está a estátua do Marquês de Pombal, Machado dos Santos, com pouco mais de 30 anos, comissário naval, comandando cerca de 40 carbonários, dispondo de alguma artilharia, manteve corajosamente a luta. A notícia de que a revolução republicana estava na rua fez afluir à Rotunda o apoio popular. Em algumas horas eram mais de 500 os apoiantes armados  prontos a dar a vida pela revolução e outros tantos prontos a combater esperando que lhas dessem armas.
Apesar da descoordenação, os navios da marinha militar que aderiram à acção revolucionária não deixaram de agir, tendo atingido o Palácio das Necessidades, onde vivia a família real. O quartel da Marinha de Alcântara, bairro operário de Lisboa, saiu em defesa da revolução. E, em vários pontos de Lisboa, grupos de civis armados dificultavam às tropas leais à Monarquia a repressão da revolução.
O rei D. Manuel II, convencido de que a monarquia chegara ao fim, embarcou para a Inglaterra depois de breve passagem por Gibraltar.
Em 4 de Outubro, nas vilas próximas de Lisboa, Loures, Almada Barreiro e Moita, foi proclamada a República. Em Lisboa o cessar fogo de 1 hora a pedido do encarregado de negócios alemão para evacuar os cidadãos alemães apressou a desmobilização das tropas monárquicas estacionadas no Rossio que, sem convicção, se opunham aos republicanos. Vendo a bandeira branca, tomaram-na pelo fim definitivo dos combates e passaram-se para as forças republicanas. A revolução triunfava.
Na manhã de 5 de Outubro de 1910 a República Portuguesa foi proclamada por José Relvas da varanda da Câmara Municipal de Lisboa. O regime monárquico chegara ao seu fim depois de longa vida de cerca de cerca de 850 anos.
Seguiram-se as medidas políticas esperadas:
  A lei do Divórcio de 3 de Novembro de 1910; a lei  de 20 de Abril de 1911 de separação do Estado da Igreja; a eleição em 28 de Maio de 1911 da Assembleia Constituinte para dotar o novo regime de Constituição; o Registo Civil obrigatório em 1911;  medidas de saneamento das finanças públicas comprometidas pelos  sucessivos empréstimos pelos governos monárquicos que levaram a Inglaterra e a Alemanha a tentar partilhar em 1898 as colónias portuguesas,  tendo o orçamento do  Estado de 1913/1914 apresentado saldo positivo.
O voto universal para todos os cidadãos, que havia sido defendido em 1891 pelo Partido Republicano no seu programa,  não passou de promessa. A nova lei eleitoral era quase tão elitista como a do regime monárquico.
Às questões sociais o regime republicano, que tinha beneficiado do apoio dos operários, dos empregados e dos artesãos para a sua implantação, prestou escassa atenção, se alguma. Em Novembro de 1910 em Lisboa foram declaradas 14 greves, incluindo dos trabalhadores dos eléctricos (transportes públicos). Pelo decreto de 6 de Dezembro de 1910 o governo regulou o direito de greve, que sempre havia sido negado pela monarquia, tendo os sindicalistas e os anarquistas classificado a lei como «decreto-burla». Em Janeiro de 1911 houve novo surto de greves contra que a Carbonária promoveu grande manifestação em Lisboa. Em Janeiro de 1912 houve greve dos trabalhadores rurais em Évora seguida de greve geral em Lisboa e noutros pontos do país. Em Maio e Junho de 1912 houve greve dos trabalhadores dos transportes públicos de Lisboa (eléctricos).  A partir de então a relação entre o regime republicano foi muito conturbada. Pouco foi feito para melhorar as difíceis condições de vida das largas camadas sociais mais pobres, defendendo o regime que, tendo a implantação da República sido obra de todos, lhe competia não favorecer mais as camadas sociais mais pobres, assim se abstendo de promover o necessário melhoramento das duras condições de vida delas. Deste modo se foram divorciando do regime republicano o povo mais desfavorecido e as correntes anarquistas e sindicalistas amalgamadas no que foi designado por anarco-sindicalismo.
Mas as nuvens bélicas anunciadoras da terrível tempestade que foi a 1ª Grande Guerra de 1914/1918 acastelavam-se. Em 1912 a Inglaterra e a Alemanha iniciaram negociação para a partilha das colónias portuguesas. Os jornais alemães, em 1914, pouco antes do início da guerra, anunciavam que brevemente a Alemanha ocuparia Angola. Depois de iniciada a guerra o exército alemão atacou no sul de Angola pelo rio Cunene a partir da então colónia alemã do Sudoeste Africano, e no norte de Moçambique a partir do Tanganica (actual Tanzânia), então colónia alemã, pelo rio Rovuma, tendo ocupado Quionga, a sul do Rovuma, junto à sua foz, até ao fim da guerra. Não houve oposição no país ao envio do exército para defender as duas colónias, tendo-se conseguido conter nelas o avanço alemão.
 Mas os republicanos preocuparam-se com o fim da guerra e o receio de que na conferência de paz que se lhe seguisse as colónias portuguesas fossem usadas como moeda na negociação. Quando a sorte da guerra era mais indecisa e a Inglaterra mais pressionou Portugal para declarar guerra à Alemanha, os republicanos no poder (Afonso Costa) acederam em 1916 a declarar guerra à Alemanha para defender as colónias portuguesas com apoio dos republicanos que se opunham a Afonso Costa, à excepção de Brito Camacho e Machado dos Santos, o herói da Rotunda a quem em grande parte se devia a vitória da revolução republicana.
 Foi decisão que se veio a revelar decisiva para a manutenção da soberania sobre as colónias portuguesas, mas desastrosa para o regime republicano, apesar de o governo ter então conseguido  apoio popular à entrada na guerra e de mesmo o rei D. Manuel II ter exortado à participação de Portugal nela.
 O desenvolver da guerra obrigou a enormes despesas públicas, levou a graves falhas no abastecimento de bens essenciais em consequência da desorganização dos transportes internacionais, a grande inflação com descontrolada subida dos preços, à chegada das notícias dos muitos mortos na frente militar. Isso trouxe o descontentamento popular.
A subida constantes do preço dos bens de primeira necessidade agravou a agitação social; os protestos contra a censura à imprensa decretada por razões militares mobilizaram os que, mesmo republicanos, se opunham ao governo; a propaganda antimilitarista, que era popular por estarem a morrer cada vez mais soldados na guerra, foi habilmente aproveitada pelos meios monárquicos, os integralistas proto-fascistas e os católicos que se opunham à República.
 Assim engrossou o descontentamento entre o povo. As greves sucederam-se. Em 1917 fizeram greve os trabalhadores dos Correios e Telégrafos, por 14 dias, seguida de greve geral em Lisboa e arredores e houve assaltos movidos tanto pela população com fome em consequência do constante aumento dos preços como por grupos organizados para pôr em causa o poder republicano.
 A fragilização do governo de Afonso Costa levou Sidónio Pais, com apoio de muitos republicanos e de católicos e monárquicos, sem oposição popular, a derrubá-lo pela força em 8 de Dezembro de 1917, assumindo poderes ditatoriais e o propósito de suspensão de todos os jornais que criticavam o governo sidonista e de ilegalização do Partido Democrata republicano. Foi a primeira manifestação em Portugal da deriva política anti-democrática da burguesia, na sequência do descalabro financeiro económico e social causado pela 1ª Grande Guerra. Há todavia que creditar a Sidónio Pais ter, pelo decreto de 11 de Março de 1918, instituído o sufrágio universal (alargado a todos os cidadãos), invocando para isso o programa do Partido Republicano de 1891, embora  não tivesse tido efeito senão por escassos meses, alterando também a lei de separação do Estado da Igreja Católica e restabelecendo relações diplomáticas com o Vaticano. A hostilidade entre os republicanos e Sidónio Pais levou os monárquicos a ocupar grande espaço na organização do poder.
 O descontentamento popular com o poder  agravara-se: Na guerra houve grande mortandade nas trincheiras da Flandres causada pela ofensiva alemã de 9 de Abril de 1918.De Setembro a Dezembro de 1918 a gripe pneumónica matara mais de 54.000 pessoas. A matança em Lisboa, em 16 de Outubro de 1918, em que foi assassinado o proeminente republicano Visconde da Ribeira Brava, de 6 presos políticos, quando com mais 147 eram conduzidos de noite sob escolta de 240 guardas despropositadamente acompanhados com toque de cornetas e tambores,   pela Rua Serpa Pinto, fez criar fortes suspeitas de envolvimento de monárquicos na ocorrência. Os distúrbios com assaltos movidos pela fome e também para criar instabilidade política, como o assalto com destruição à sede da Maçonaria em 6 de Dezembro de 1918, multiplicaram-se.
Em consequência o regime ditatorial sidonista, que acolheu muitos monárquicos e católicos, estava a tornar-se insustentável, o que era sentido pelos militares conservadores, especialmente os monárquicos, que organizaram pelo país Juntas Militares com o objectivo de tentar restaurar a Monarquia. Em 14 de Dezembro de 1918 Sidónio Pais foi morto a tiro na estação do Rossio, em Lisboa, por José Júlio da Costa, antigo sargento do exército, que fizera a guerra contra os alemães. Sidónio Pais tentou pôr em prática em Portugal uma das primeiras tentativas de uma significativa fracção da burguesia europeia para governar sem se submeter ao controle democrático dos cidadãos.
 Com a morte de Sidónio Pais desapareceu o sidonismo. Logo em 19 de Janeiro de 1919 a Junta Militar do Norte proclamou a restauração da Monarquia, tendo sido seguida por todo o norte até ao Douro, com excepção de Chaves, mas pouco tendo passado do Douro para baixo. O regime de violência que impôs ficou conhecido por Traulitânia por se ter caracterizado por grande violência sobre os presos políticos e por perseguições e vinganças sobre os adversários.
Em Lisboa os militares monárquicos, sem apoio popular, foram na madrugada de 23 de Janeiro de 1919 para  Monsanto e daí bombardearam a cidade. A mobilização popular supriu a falta de meios militares e em poucas horas bateram as forças monárquicas, que se renderam no dia 24.
 Perante o descalabro da tentativa de assalto ao poder em Lisboa os monárquicos do norte deixaram-se bater facilmente pelos republicanos, tendo acabado em 15 de Fevereiro a tentativa restauracionista monárquica de 1919.
Os monárquicos, os católicos, os integralistas anti-democráticos proto-fascistas, os republicanos descontentes, os grandes proprietários de terras e os maiores industriais e banqueiros vieram a conseguir, em 1926,  mobilizar apoio militar para derrubar o regime republicano sem que as camadas populares, descontentes com a despreocupação do poder republicano em relação ao aprofundamento da democracia e à sorte dos mais pobres, se lhe opusessem.
 Em 28 de Maio desse ano o regime caiu substituído por ditadura militar que progressivamente evoluiu para o controle político do Estado por Salazar, chamado de Coimbra para sanear as finanças públicas desequilibradas pela participação de Portugal na 1ª Grande Guerra e pelo descontrole financeiro dos primeiros anos da ditadura militar, apesar das sucessivas e numerosas tentativas falhadas dos republicanos, nomeadamente de muitos que  haviam apoiado a sublevação militar de 28 de Maio de 1926, para repor o regime democrático.
Apesar de Salazar ter sido em Coimbra fundamentalmente social-democrata cristão seguidor da linha política traçada nas encíclicas do papa Leão 13, em pouco tempo adoptou pragmática e hábil prática política de direita conservadora favorável aos regimes fascistas europeus (fascismo italiano e nazismo alemão) com objectivo de manter o seu poder pessoal nas complexas condições de política interna decorrente das múltiplas forças e correntes políticas que  haviam derrubado o regime em 1926 e externa sequentes à grande crise financeira e económica iniciada em 1929, à guerra civil em Espanha, à 2ª Segunda Grande Guerra e, na sua sequência, à afirmação pela ONU do princípio da auto-determinação dos povos sujeitos a domínio colonial e dos princípios  políticos democráticos que levaram Portugal à desastrosa guerra colonial de 1961 a 1974.

A queda do regime republicano deveu-se em grande parte a não ter promovido melhores condições de vida para as camadas sociais mais desfavorecidas nem aprofundado a democracia. E pode, a esta distância histórica, pôr-se a questão: A pesada herança colonial, depois da independência do Brasil no início do século 19, não terá sido para Portugal, tendo em conta a sua dimensão e o atraso da sua economia, a causa do atraso do seu desenvolvimento político, social e económico?

Função política dos meios de comunicação

Os meios de comunicação social e a definição do poder político


António Bica

A partir da institucionalização do Império Romano o poder político passou, claramente, a ser definido pela força ao serviço das classes dominantes. Com a adopção do Cristianismo como religião do Estado Romano foi acrescentada ao poder político legitimação religiosa mediante sinais externos vários e o fundamento de que a detenção do poder pelos governantes resulta da vontade de Deus.
Durante o longo período que decorreu desde a consolidação do poder pelo imperador romano Augusto até às revoluções burguesas, porque o poder assentava na força e na legitimação religiosa, a repressão era, consequentemente, a forma de fazer os cidadãos (súbditos na linguagem da época) aceitar o poder.
Com as revoluções burguesas do fim do século 18 e do século 19, fundamentalmente a Revolução Francesa, foi posto em causa, pelas classes burguesas ascendentes, o princípio da definição do poder pela força legitimado pela religião. Adoptou-se da antiguidade clássica pré-imperial o princípio da definição do poder pela manifestação de vontade dos cidadãos, isto é por eleições. Este princípio foi o que se afigurou às emergentes camadas burguesas capaz de definir e legitimar a seu favor o poder. Mas puseram ao sistema eleitoral, como nova forma de definição do poder político, baias para garantir não lhes fugir das mãos: Só os homens votavam e, deles, só os que dispunham de suficiente fortuna pessoal. Em rigor só podia votar quem pertencesse às camadas sociais burguesas.
Mas, como as sociedades são dinâmicas e os que estão na base sempre aspiram a subir, pouco a pouco o poder burguês foi sendo obrigado a estender o direito de voto a camadas cada vez mais alargadas. Na primeira metade do século 20 a burguesia de alguns países, receosa das reivindicações de extensas camadas pobres da base da pirâmide social, ensaiou o regresso ao velho modelo de definição do poder pela força. Foram os movimentos e as experiências políticas fascistas.
Com o fim da Segunda Grande Guerra a linha política fascista foi derrotada e consolidou-se o modelo de definição do poder pelo voto de todos os cidadãos, homens e mulheres, independentemente dos bens que têm e da escolarização.
Como as camadas da base da pirâmide social são as mais numerosas, teve a burguesia de procurar instrumentos de controlo social e político, para captar o seu voto, que não fossem entendidos como repressivos por essas camadas sociais.
As novas tecnologias de comunicação e a generalização da escolarização facilitaram  a substituição da acção repressiva como método de controle político pela acção manipuladora sobre a opinião dos cidadãos.
Os métodos de acção não fisicamente violentos para controlo da opinião dos cidadãos foram muito potenciados com a rádio (cuja força de persuasão, na década de 1930, foi habilmente manipulada pelo regime nazi alemão) e com a televisão após o fim da Segunda Grande Guerra.
O poder nos principais países, em especial nos Estados Unidos da América do Norte, promove o estudo das técnicas de manipulação da opinião dos cidadãos através dos meios de comunicação social, com extensão à produção artística, em especial ao cinema e ao romance, para, com maior eficácia, controlar a sua opinião e condicionar o seu voto. São técnicas semelhantes às usadas pelas grandes empresas para levar os compradores a adquirir os seus produtos.
Muitos dos que eram adultos no regime salazarista aprenderam a procurar a verdade escondida nas entrelinhas dos jornais, nas palavras da rádio e nas imagens televisivas. Com as sofisticadas técnicas de manipulação da opinião pública usadas actualmente pelos poderes instalados é mais difícil ler nas entrelinhas da informação que nos chega em cada dia. Há que ser mais vigilante e crítico: cruzar informações, não nos limitarmos a ler os títulos e as caixas das notícias, lê-las integralmente com atenção, procurar perceber os interesses relacionados com os factos noticiados.
E, tanto quanto possível, há que procurar abrir brechas no domínio do poder sobre os meios de comunicação social através da comunicação com os outros cidadãos pela palavra directa, pela internet, pelos telemóveis, procurando aceder ao espaço possível nos grandes meios de comunicação social, organizando jornais locais e outras publicações e por outros meios.

Alguma imprensa estadunidense

Alguma imprensa estadunidense começa a interrogar-se sobre os desmandos do neoliberalismo

António Bica

O terramoto financeiro estadunidense, que contaminou todo o mundo, iniciado no Verão de 2007 não se esperava que e viesse a intensificar no final do Verão de 2008, antes se esperava que chegasse ao termo. Mas em Setembro de 2008 ocorreram grandes abalos nas maiores empresas financeiras estadunidenses que as levaram a falência eminente, sem se saber quando a crise vai acabar. A duas delas, especializadas em crédito hipotecário à habitação, a Freddie Mac e a Fannie Mae, pôs o governo do ultraliberal presidente Bush a pôr mão por baixo disponibilizando, ao que a imprensa estadunidense noticiou, 200.000 milhões de dólares. O gigante banco de investimentos Lehman Brothers não se salvou da falência. À AIG (American International Group), grande empresa de seguros com mais de 100.000 trabalhadores e dezenas de milhões de seguros de pensões e outros, voltou o governo do presidente Bush a pôr a mão por baixo socorrendo-a com 80.000 milhões de dólares.
            O jornal estadunidense Washington Post, em texto de opinião de Steve Pearstein, atribui aos grandes patrões das empresas a responsabilidade por esta terrível crise financeira gerada nos EUA que está a abalar o mundo: no entender do jornal, porque apoiam a política dos republicanos de baixos impostos aos mais ricos, recusam a promoção da segurança económica dos trabalhadores e a eficiência do sistema de saúde estadunidense que, sendo o mais privatizado do mundo desenvolvido com custos muito elevados, é dos mais ineficientes, havendo grande número de famílias de trabalhadores sem cuidados de saúde assegurados; desregularam o mercado das energias, o que levou à ineficiência e a graves rupturas nas redes eléctricas como consequência das distorções na concorrência, da manipulação de preços e da avidez por lucros desproporcionados, e, no que respeita ao petróleo e ao gás natural, não foram capazes de planear e desenvolver com antecedência os necessários investimentos em prospecção e exploração de novas jazidas.
Outra imprensa estadunidense censura o governo neoliberal republicano por impor políticas de fé cega nos mercados não regulados e a cobrança de baixos impostos sobre os mais ricos em prejuízo de políticas de promoção de segurança nos negócios, de práticas comerciais honestas, de respeito pelo ambiente.
A propósito destas considerações da grande imprensa dos EUA, não posso deixar de citar parcialmente o que em artigo de opinião que li neste jornal há quase 2 anos:
“São condições para que haja ‘progresso social e civilizacional’ o desenvolvimento da economia com crescimento da riqueza colectiva, que desenvolvimento da riqueza colectiva é factor decisivo para o avanço das sociedades humanas no caminho da democracia e da solidariedade.
As condições para que haja desenvolvimento na economia são, por ordem de prioridade:
a)      Promoção do conhecimento científico pela investigação;
b)      Aquisição permanente de conhecimento por todos;
c)      Cuidados básicos de saúde para todos;
d)     Não deixar ninguém cair no desamparo e na exclusão;
e)      Definição do poder público, a todos os níveis, por todos os cidadãos, por eleições periódicas livres;
f)       Fazer assentar, tanto quanto possível, a organização da sociedade em automatismos, de modo que a necessidade de intervenção da autoridade pública se reduza ao mínimo, devendo sobretudo tentar criar condições para o melhor funcionamento dos automatismos;
g)      Assegurar condições para a máxima mobilidade económica e social;
h)      Respeitar os direitos constantes da Declaração Universal dos Direitos do Homem;
i)        Ter em conta que, enquanto houver escassez de bens, cada um terá que ser remunerado segundo o seu trabalho, o que foi definido pelos teóricos clássicos do socialismo, que só para as sociedades de superabundância (o utópico comunismo) defenderam: de cada um segundo as suas capacidades, a cada um segundo as suas necessidades.”

As eleições presidenciais estadunidenses de Novembro de 2008 poderão determinar mudanças significativas na política económica dos EUA, que serão mais significativas se vencer o candidato Obama.
Talvez ainda se não avance nos EUA para políticas sociais e económicas capazes de promover o cumprimento de cada uma das indicadas alíneas. Desde o colapso da União Soviética, em 1991, e dos países do “socialismo real” do oriente europeu, os donos das grandes empresas multinacionais não têm cessado de pressionar a redução da segurança do trabalho, e o número de anos de trabalho para se ter direito a reforma. Em consequência disso, como a Universidade Cornell (EUA) informa, em publicação sobre a situação do mundo laboral nos EUA, em 2006/2007, o rendimento dos cidadãos estadunidenses mais ricos aumentou desmedidamente enquanto que os rendimentos das famílias médias caíram muito.
Mas progressivamente as numerosas camadas sociais mais desfavorecidas do mundo não deixarão de lutar por melhores condições de salários, de segurança social, de habitação, de saúde e de reforma. Essa luta é inevitável e justa. A relação de trabalho é de natureza económica e não moral. Não podem por isso as organizações de trabalhadores deixar de ter em conta que terá que haver correspondência entre o aumento da produtividade e a melhoria das condições de salários e de outros benefícios sociais. No mesmo texto que li neste jornal, sobre isso era dito:
“Um trabalhador que vende a sua capacidade de trabalho a outra pessoa procura vendê-la bem, isto é, receber por ela remuneração tão alta quanto possível. Como o comprador da capacidade de trabalho tem necessidade de a transformar em bens, procura que a produção de bens por cada trabalhador seja tão grande quanto possível. É o que se designa por produtividade: a relação entre o tempo de trabalho e a quantidade de bens produzidos.
De que depende a produtividade? Fundamentalmente de três circunstâncias: a tecnologia usada na produção, o grau de conhecimentos do trabalhador e o seu empenhamento pessoal.
Quanto à tecnologia usada, ela é decidida pelo empregador, dependendo apenas dele. O empregador é que decide, ao, por exemplo, pôr o trabalhador a fazer cópias de documentos se compra para isso fotocopiadora, se máquina de escrever, ou se as cópias são escritas à mão.
No caso da construção de uma estrada, o empresário é que decide se vai nela utilizar a melhor e mais potente maquinaria de escavação e de transporte de aterro, ou se a construção vai ser feita a pá e picareta e o transporte do aterro em carros de mão.
Como decorre destes dois exemplos, a produtividade de cada trabalhador é muitíssimo maior se a tecnologia que o empregador usar for a melhor.
A produtividade dos trabalhadores depende fundamentalmente da tecnologia que for usada no processo produtivo, sendo a escolha da tecnologia da responsabilidade do empregador. Se o empregador não usar a melhor tecnologia é por rotina, esquecimento, ou por não querer fazer o necessário investimento.
O grau de conhecimentos do trabalhador é também factor significativo para a produtividade. Mas as habilitações de cada trabalhador são definidas pelo empregador quando o contrata, podendo exigir as habilitações que entender como condição para contratar. Se, depois de empregado o trabalhador, quiser que ele melhore os conhecimentos tecnológicos, compete ao empregador fazer a preparação profissional do trabalhador com cursos adequados.
Há finalmente que referir o empenhamento pessoal do trabalhador, que resulta da relação que se estabelecer entre o trabalhador e o empregador. Há empregadores que consideram que para se obter boa produtividade devem ser rudes e às vezes brutais com os trabalhadores, procurando assim forçá-los a produzir o mais possível. A normal tendência do trabalhador, que vende a sua capacidade de trabalho por uma quantia periódica mensal fixa e independente do que produz durante o correspondente período de tempo, é esforçar-se o menos possível, dando o mínimo de empenhamento em troca da remuneração, se ela não variar em função da quantidade de bens produzidos. Os empregadores mais inteligentes, em vez de usar métodos ríspidos e repressivos, procuram usar critérios de remuneração que tenham em conta o grau de empenhamento dos trabalhadores, remunerando-os em função desse empenhamento e do que produzirem, o que corresponde ao princípio de a cada um segundo o seu trabalho.

A Revolução Republicana de 1910

Reflexão em S. Pedro do Sul sobre a Revolução Republicana de 1910

António Bica

Em 28 de Setembro, no Cine-Teatro de S. Pedro do Sul, foi lembrada a revolução republicana
de 5 de Outubro de 1910 por iniciativa da Câmara Municipal e da Gazeta da Beira. O deputado
e Prof. da Universidade Nova de Lisboa, com cátedra a cargo, Fernando Rosas, fez excelente
exposição sobre o período histórico anterior e posterior à proclamação da República.
A plateia do Cine-Teatro esteve quase cheia e atenta.
A preceder, o Grupo de Cantares de Manhouce interpretou canções do folclore de Lafões e da
autoria do músico Lopes Graça que, com Giacometi, andou por Lafões, no fim da década de
1960, a recolher o seu notável folclore, sob a direcção de Alexandrino Matos e a participação
das veteranas, em que não entrou a Isabel Silvestre por afonia, mas esteve presente, e do
grupo juvenil que está a assegurar continuidade ao Grupo.
A directora da Gazeta da Beira, Carmo Bica, abriu a sessão, tendo estado na mesa o Senhor
Vice-Presidente da Câmara de S. Pedro do Sul, Dr. Adriano , e o Senhor representante
do Governador Civil de Viseu, Dr. .
António Bica apresentou o tema e o orador, Dr. Fernando Rosa, tendo dito, no essencial:
Desde que, no século 18, se procurou generalizadamente submeter à crítica da razão o que se
tinha por imutável e indiscutível
ungido pelo poder religioso, e passou desde então a ser questionado, deixando de se aceitar
que o poder de governar se legitimasse pela alegada vontade de Deus interpretada pelas
estruturas religiosas.
Os que então questionaram a legitimidade, assim entendida, do poder dos reis, consideravam
que todos os homens são iguais em direitos e deveres, propondo que se racionalizasse a
legitimação do poder político, isto é o poder de decidir sobre o que diz respeito a todos,
passando a defender que
cidadãos expressa livre e periodicamente.
Isso é a democracia
possíveis: reunião, manifestação, escrita, imagens e outros meios.
Então, nos fins do século 18 e princípios do 19 ( em Portugal na primeira metade do 19), não
houve condições políticas para se eliminar de vez o poder dos reis, que, sendo hereditário, não
resulta da escolha livre e periódica dos cidadãos, com isso não se respeitando completamente
a democracia.
Assim mantiveram-se, em quase todos os países da Europa, durante o século 19, as
monarquias, embora o poder dos reis fosse fortemente limitado pelas constituições. Em
1910,só a França e a Suíça tinham regimes republicanos.
Em Portugal, nos primeiros anos do século 20, o rei, então
Constituição em vigor, nomeou chefe do governo
governo, com assentimento do rei, a governar o país autoritariamente em 1906, sem respeitar
as liberdades democráticas básicas, fundamentalmente o direito de opinião e da sua expressão
livre.
Isso fez crescer a vontade de acabar com a monarquia e alargar a influência do Partido
Republicano nas maiores cidades do país e
descontentamento e a desinteressar-se de defender o poder régio.
, o poder dos reis, que até então era absoluto, indiscutível eesse poder devia ser conferido pela vontade maioritária dos, que implica a liberdade de pensamento e de o exprimir pelos meiosD. Carlos, subvertendo aJoão Franco, que passou, sem programa delevou os partidos monárquicos ao
A consequência foi a queda da monarquia em 5 de Outubro de 1910, com o sangrento
episódio da morte de D. Carlos em 1908 no Terreiro do Paço, sem que os partidos
monárquicos a tivessem defendido. Portugal tornou-se então a terceira república europeia.
A revolução republicana de 5 de Outubro de 1910 aprofundou, em Portugal, a democracia,
acabando com a dinastia de Bragança e com a atribuição ao rei do direito de exercer por
herança o poder público, mesmo que limitado.
Mas
permanente, nunca acabado, com avanços e recuos por vezes muito grandes, como foi o
regresso do autoritarismo em 1926 que levou por 48 anos ao chamado Estado Novo e a
reconquista da democracia com o 25 de Abril sob forma bem mais aperfeiçoada do que a do
regime republicano de 1910.
Pretende-se, com esta sessão, mais do que lembrar uma data, a da revolução republicana de
1910, não esquecer que
os cidadãos, trabalho político permanente e nunca acabado de cada um de nós
actual estrutura política democrática em Portugal ter a consolidação de 34 anos, não podemos
considerar que estamos livres de nova deriva política autoritária.
A seguir referiu-se ao orador da sessão:
Para falar da revolução de 5 de Outubro de 1910 e do acidentado percurso político de Portugal
no século 20 aceitou
com a causa pública desde a juventude e continuando a preocupar. É deputado e bom
conhecedor da história de Portugal, especialmente a contemporânea, com notável obra
publicada e carreira académica de mérito. É professor da Universidade Nova de Lisboa, com
cátedra a cargo, e director do Instituto de História Contemporânea dela. Escreveu, com outros,
a história da Primeira República e o volume vii, o Estado Novo, que coordenou, da História de
Portugal dirigida por José Matoso, além de outros livros.
a democracia não se conquista para sempre. Mantém-se por combate políticoa construção e o aprofundamento da democracia é tarefa de todos. Apesar de aFernando Rosas o convite para vir aqui, a S. Pedro do Sul, preocupandose
Fernando Rosas interveio a seguir
a revolução republicana e o que se seguiu entrando pelo período posterior ao golpe militar de
28 de Maio de 1926.
Resumidamente, sem se pretender reproduzir as palavras, de que se não dispõe de gravação,
antes reproduzindo o seu sentido, procurando-se não o trair, com indicação de algumas datas
para o leitor melhor seguir o percurso temporal, disse:
O Partido Republicano Português, embora anterior ao
humilhantemente pôs fim à reclamada soberania portuguesa sobre as terras africanas entre
Moçambique e Angola, que a Inglaterra anexou para constituir a sua colónia da Rodésia (hoje
os países independentes Zâmbia e Zimbábuè), ganhou então projecção e tantos adeptos por se
ter consequentemente oposto à sua aceitação pelo regime monárquico, que, em
de 1891,
forte repressão, incluindo contra os jornais republicanos frequentemente apreendidos e
processados.
Desde então o apoio do povo urbano, especialmente em Lisboa e no Porto, foi crescendo. Para
o Parlamento foram sendo eleitos cada vez mais deputados republicanos. A Câmara Municipal
de Lisboa passou a ser republicana e em muitas outras havia cada vez mais vereadores
republicanos. Os jornais republicanos passaram a ter cada vez mais leitores.
Em contraste o regime monárquico afundava-se em negociatas entre elas o monopólio do
tabaco e a administração do Crédito Predial Português e desprestigiava-se com os
escandalosos
Carlos.
Com o distanciamento do povo urbano, nomeadamente os operários, os trabalhadores dos
serviços, os funcionários públicos de base, criaram-se condições favoráveis à revolução
republicana. Os mais activos dessas camadas sociais integraram a
secreta e hierarquicamente, devendo cada membro ter arma e ser capaz de a manejar para
lutar pela implantação da República quando fosse tempo.
As camadas cultas (médicos, advogados, engenheiros, militares, jornalistas, professores,
escritores, estudantes, artistas e outros), cada vez mais desiludidas com a monarquia,
agrupadas nas lojas maçónicas, foram aumentando o número dos apoiantes do Partido
Republicano Português.
com notável lição de história sobre o tempo que antecedeuUltimato inglês, em 1890, que31 de Janeirolevou à falhada tentativa de proclamação da República no Porto, a que se seguiuadiantamentos à Casa Real, nunca reembolsados, especialmente a favor de D.Carbonária organizada
Estavam criadas as condições para a revolução republicana.
O núcleo revolucionário organizado para actuar na noite de 3 para 4 de Outubro, composto
por militares da Marinha e do Exército e integrantes da Carbonária, chefiado por, entre outros,
Miguel Bombarda
Reis,
assassinado por um alienado no Hospital psiquiátrico de Rilhafoles, hoje Hospital Miguel
Bombarda, pouco antes da hora marcada para o início da acção revolucionária e do mau
funcionamento das comunicações com os navios da Armada no Tejo onde havia núcleos
revolucionários e os quartéis de Artilharia 1 e de Infantaria 16.
julgando a acção revolucionária perdida, suicidou-se.
saído com destacamento de militares apoiantes da revolução, convencidos de que o
levantamento revolucionário militar fracassara, decidiram regressar ao quartel com os
militares que comandavam. Na Rotunda, onde hoje está a estátua do Marquês de Pombal,
Machado dos Santos, com pouco mais de 30 anos, comissário naval, comandando cerca de 40
carbonários, dispondo de alguma artilharia, manteve corajosamente a luta. A notícia de que a
revolução republicana estava na rua fez afluir à Rotunda o apoio popular. Em algumas horas
eram mais de 500 os apoiantes armados prontos a dar a vida pela revolução e outros tantos
prontos a combater esperando que lhas dessem armas.
Apesar da descoordenação, os navios da marinha militar que aderiram à acção revolucionária
não deixaram de agir, tendo atingido o Palácio das Necessidades, onde vivia a família real. O
quartel da Marinha de Alcântara, bairro operário de Lisboa, saiu em defesa da revolução. E, em
vários pontos de Lisboa, grupos de civis armados dificultavam às tropas leais à Monarquia a
repressão da revolução.
O rei
depois de breve passagem por Gibraltar.
Em 4 de Outubro, nas vilas próximas de Lisboa, Loures, Almada Barreiro e Moita, foi
proclamada a República. Em Lisboa o cessar fogo de 1 hora a pedido do encarregado de
negócios alemão para evacuar os cidadãos alemães apressou a desmobilização das tropas
monárquicas estacionadas no Rossio que, sem convicção, se opunham aos republicanos.
Vendo a bandeira branca, tomaram-na pelo fim definitivo dos combates e passaram-se para as
forças republicanas.
, prestigiado médico e professor de medicina, e o almirante Cândido dosdescoordenou-se em consequência da imprevisível morte de Miguel BombardaO almirante Cândido dos Reis,Os capitães de Artilharia 1 que haviamD. Manuel II, convencido de que a monarquia chegara ao fim, embarcou para a InglaterraA revolução triunfava.
Na manhã de 5 de Outubro de 1910 a República Portuguesa foi proclamada por José Relvas
da varanda da Câmara Municipal de Lisboa. O regime monárquico chegara ao seu fim depois
de longa vida de cerca de cerca de 850 anos.
Seguiram-se as
A lei do Divórcio de 3 de Novembro de 1910; a lei de 20 de Abril de 1911 de separação do
Estado da Igreja; a eleição em 28 de Maio de 1911 da Assembleia Constituinte para dotar o
novo regime de Constituição; o Registo Civil obrigatório em 1911; medidas de saneamento das
finanças públicas comprometidas pelos sucessivos empréstimos pelos governos monárquicos
que
tendo o orçamento do Estado de 1913/1914 apresentado saldo positivo.
O voto universal para todos os cidadãos, que havia sido defendido pelo Partido Republicano,
não passou de promessa. A nova lei eleitoral era quase tão elitista como a do regime
monárquico.
Às questões sociais o regime republicano, que tinha beneficiado do apoio dos operários, dos
empregados e dos artesãos para a sua implantação, prestou escassa atenção, se alguma. Em
Novembro de 1910 em Lisboa foram declaradas 14 greves, incluindo dos trabalhadores dos
eléctricos (transportes públicos). Pelo decreto de 6 de Dezembro de 1910 o governo regulou o
direito de greve, que sempre havia sido negado pela monarquia, tendo os sindicalistas e os
anarquistas classificado a lei como «decreto-burla». Em Janeiro de 1911 houve novo surto de
greves contra que a Carbonária promoveu grande manifestação em Lisboa. Em Janeiro de 1912
houve greve dos trabalhadores rurais em Évora seguida de greve geral em Lisboa e noutros
pontos do país. Em Maio e Junho de 1912 houve greve dos trabalhadores dos transportes
públicos de Lisboa (eléctricos). A partir de então a relação entre o regime republicano foi
muito conturbada. Pouco foi feito para melhorar as difíceis condições de vida das largas
camadas sociais mais pobres, defendendo o regime que, tendo a implantação da República
sido obra de todos, lhe competia não favorecer mais as camadas sociais mais pobres, assim se
abstendo de promover o necessário melhoramento das duras condições de vida delas. Deste
modo se foram divorciando do regime republicano o povo mais desfavorecido e as correntes
anarquistas e sindicalistas amalgamadas no que foi designado por anarco-sindicalismo.
Mas as nuvens bélicas anunciadoras da terrível tempestade que foi a 1ª Grande Guerra de
1914/1918 acastelavam-se. Em 1912 a Inglaterra e a Alemanha iniciaram negociação para a
partilha das colónias portuguesas. Os jornais alemães, em 1914, pouco antes do início da
guerra, anunciavam que brevemente a Alemanha ocuparia Angola. Depois de iniciada a guerra
o exército alemão atacou no sul de Angola pelo rio Cunene a partir da então colónia alemã do
Sudoeste Africano, e no norte de Moçambique a partir do Tanganica (actual Tanzânia), então
colónia alemã, pelo rio Rovuma, tendo ocupado Quionga, a sul do Rovuma, junto à sua foz, até
ao fim da guerra. Não houve oposição no país ao envio do exército para defender as duas
colónias, tendo-se conseguido conter nelas o avanço alemão.
Mas os republicanos preocuparam-se com o fim da guerra e o receio de que na conferência de
paz que se lhe seguisse as colónias portuguesas fossem usadas como moeda na negociação.
Quando a sorte da guerra era mais indecisa e a Inglaterra mais pressionou Portugal para
declarar guerra à Alemanha, os republicanos no poder (Afonso Costa) acederam em 1916 a
declarar guerra à Alemanha para defender as colónias portuguesas com apoio dos
republicanos que se opunham a Afonso Costa, à excepção de Brito Camacho e Machado dos
Santos, o herói da Rotunda a quem em grande parte se devia a vitória da revolução
republicana.
Foi
medidas políticas esperadas:levaram a Inglaterra e a Alemanha a tentar partilhar em 1898 as colónias portuguesas,decisão que se veio a revelar decisiva para a manutenção da soberania sobre as colónias
portuguesas, mas desastrosa para o regime republicano, apesar de o governo ter então
conseguido apoio popular à entrada na guerra e de mesmo o rei D. Manuel II ter exortado à
participação de Portugal nela.
O desenvolver da guerra obrigou a enormes despesas públicas, levou a graves falhas no
abastecimento de bens essenciais em consequência da desorganização dos transportes
internacionais, a grande inflação com descontrolada subida dos preços, à chegada das notícias
dos muitos mortos na frente militar.
A subida constantes do preço dos bens de primeira necessidade agravou a agitação social; os
protestos contra a censura à imprensa decretada por razões militares mobilizaram os que,
mesmo republicanos, se opunham ao governo; a propaganda antimilitarista, que era popular
por estarem a morrer cada vez mais soldados na guerra, foi habilmente aproveitada pelos
meios monárquicos, os integralistas proto-fascistas e os católicos que se opunham à República.
Isso trouxe o descontentamento popular.
Assim engrossou o descontentamento entre o povo
fizeram greve os trabalhadores dos Correios e Telégrafos, por 14 dias, seguida de greve geral
em Lisboa e arredores e houve assaltos movidos tanto pela população com fome em
consequência do constante aumento dos preços como por grupos organizados para pôr em
causa o poder republicano.
A fragilização do governo de Afonso Costa levou
republicanos e de católicos e monárquicos, sem oposição popular, a derrubá-lo pela força em
8 de Dezembro de 1917, assumindo poderes ditatoriais e o propósito de suspensão de todos
os jornais que criticavam o governo sidonista e de ilegalização do Partido Democrata
republicano. Há todavia que creditar a Sidónio Pais ter, pelo decreto de 11 de Março de 1918,
instituído o
do Partido Republicano de 1891, alterando também a lei de separação do Estado da Igreja
Católica e restabelecendo relações diplomáticas com o Vaticano. A hostilidade entre os
republicanos e Sidónio Pais levou
poder
O descontentamento popular com o poder agravara-se: Na guerra houve grande mortandade
nas trincheiras da Flandres causada pela ofensiva alemã de 9 de Abril de 1918.De Setembro a
Dezembro de 1918 a gripe pneumónica matara mais de 54.000 pessoas. A matança em Lisboa,
em 16 de Outubro de 1918, em que foi assassinado o proeminente republicano Visconde da
Ribeira Brava, de 6 presos políticos, quando com mais 147 eram conduzidos de noite sob
escolta de 240 guardas despropositadamente acompanhados com toque de cornetas e
tambores, pela Rua Serpa Pinto, fez criar fortes suspeitas de envolvimento de monárquicos
na ocorrência. Os distúrbios com assaltos movidos pela fome e também para criar
instabilidade política, como o assalto com destruição à sede da Maçonaria em 6 de Dezembro
de 1918, multiplicaram-se.
Em consequência o regime ditatorial sidonista, que acolheu muitos monárquicos e católicos,
estava a tornar-se insustentável, o que era sentido pelos militares conservadores,
especialmente os monárquicos, que organizaram pelo país
tentar restaurar a Monarquia. Em 14 de Dezembro de 1918 Sidónio Pais foi morto a tiro na
estação do Rossio, em Lisboa, por
guerra contra os alemães.
Com a morte de Sidónio Pais desapareceu o sidonismo. Logo em 19 de Janeiro de 1919 a
. As greves sucederam-se. Em 1917Sidónio Pais, com apoio de muitossufrágio universal (alargado a todos os cidadãos), invocando para isso o programaos monárquicos a ocupar grande espaço na organização do.Juntas Militares com o objectivo deJosé Júlio da Costa, antigo sargento do exército, que fizera a
Junta Militar do Norte proclamou a restauração da Monarquia,
norte até ao Douro, com excepção de Chaves, mas pouco tendo passado do Douro para baixo.
O regime de violência que impôs ficou conhecido por
grande violência sobre os presos políticos e por perseguições e vinganças sobre os adversários.
Em Lisboa os militares monárquicos, sem apoio popular, foram na madrugada de 23 de Janeiro
de 1919 para
de meios militares e em poucas horas bateram as forças monárquicas, que se renderam no dia
24.
Perante o descalabro da tentativa de assalto ao poder em Lisboa os monárquicos do norte
deixaram-se bater facilmente pelos republicanos, tendo acabado em 15 de Fevereiro a
tentativa restauracionista monárquica de 1919.
Os monárquicos, os católicos, os integralistas proto-fascistas, os republicanos descontentes, os
grandes proprietários de terras e os maiores industriais e banqueiros vieram a conseguir, em
1926, mobilizar grande apoio militar para derrubar o regime republicano sem que as camadas
populares, descontentes com a despreocupação do poder republicano em relação ao
aprofundamento da democracia e à sorte dos mais pobres, se lhe opusessem.
tendo sido seguida por todo oTraulitânia por se ter caracterizado porMonsanto e daí bombardearam a cidade. A mobilização popular supriu a falta
Em 28 de Maio desse ano o regime
progressivamente evoluiu para o controle político do Estado por Salazar, chamado de Coimbra
para sanear as finanças públicas desequilibradas pela participação de Portugal na 1ª Grande
Guerra e pelo descontrole financeiro dos primeiros anos da ditadura militar, apesar das
sucessivas e numerosas tentativas falhadas dos republicanos para repor o regime democrático.
caiu substituído por ditadura militar que
A queda do regime republicano deveu-se em grande parte a não ter promovido melhores
condições de vida para as camadas sociais mais desfavorecidas nem aprofundado a
democracia.
Bom número de presentes (Carlos Matias, Manuel Silva, Pedro Rodrigues, Rui Costa, João
Ferreira, Albino Matos e Jorge Marques), revelando bons conhecimentos de história, bom sinal
de que a região tem evoluído em cultura, questionaram Fernando Rosas.
Já noite adiantada, encerrou-se a sessão.

Desenvolver a Democracia

A democracia é o único sistema de governo compatível com o princípio de que todos os homens nascem iguais em direitos e em deveres


António Bica

                                                                      

I – O fundamento da democracia

1. A democracia tem por fundamento o princípio de que todos somos ontologicamente iguais. Daí resulta que o governo do colectivo há-de decorrer da livre escolha dos cidadãos.
Em democracia quem exerce o poder de fazer leis e regulamentos, de administrar e de fazer justiça a nível nacional, regional e local tem que ser para isso eleito, directa ou indirectamente, pelos cidadãos por período limitado de tempo, de forma livre, mediante debate prévio, por processo que assegure voto livre e secreto.

II – As necessárias consequências da democracia


2. Além disso, para que haja democracia, é necessário que:
a) Haja liberdade de pensamento com expressão dele, nomeadamente nos meios de comunicação social, mediante manifestação pública e nas diversas formas de arte, sem prejuízo do direito de cada um à integridade moral, física e ao equilibrado respeito pelos seus bens.
b) Os cidadãos se possam livremente associar, no quadro constitucional, para: prosseguir fins políticos; interesses não económicos nomeadamente culturais, sindicais, profissionais, desportivos, religiosos, cívicos; interesses económicos nomeadamente sob forma cooperativa.
c) O poder público, a todos os níveis (nacional, regional e local), assegure ensino para todos gratuito até ao máximo nível possível, tendo em conta a riqueza nacional produzida.
d) Se organize para todos sistema de saúde que assegure e promova acções preventivas da doença a desenvolver de forma sistemática desde antes do nascimento até à morte e ainda acções para a recuperação da saúde ou atenuação das consequências das doenças não curáveis, de acordo com a riqueza nacional produzida.
e) Se garanta que nenhum cidadão ou residente caia no desamparo por maus tratos, falta de alimentação, de abrigo ou de roupa, com prioridade para as crianças, os incapazes,  os jovens e os idosos, com mecanismos eficazes que evitem simuladas carências por oportunismo e parasitismo, também de acordo com a riqueza nacional produzida.
f) Se desenvolvam sistemas de participação com discussão permanente de todas as questões de interesse para os cidadãos, a nível local, regional, nacional e internacional, privilegiando o recurso aos actuais meios electrónicos disponíveis, procurando possibilitar e estimular a expressão permanente ou em períodos curtos, por cada cidadão da sua opinião, de modo quantificável e não falsificável.
g) Se institucionalizem e generalizem métodos de expressão sistemática e confidencial, por cada cidadão, da qualificação do grau de eficiência dos diversos serviços públicos que lhe são prestados, sendo essa expressão organizada de modo sistemático e não manipulável nem falsificável, com vista a estimular a qualidade e a permanente adequação dos diversos serviços públicos.
h) Se procure evitar a parasitação do sistema democrático de liberdades e garantias por aqueles que, usando processos demagógicos, fraudulentos, criminosos e de abuso de poder nomeadamente económico, conseguem chegar ao poder e mantê-lo a nível local, regional ou nacional para o usar em seu benefício, como se tem visto acontecer, nomeadamente a nível autárquico, com maior expressão em candidaturas independentes.
i) Se organize o exercício do poder, a todos os níveis, de modo que seja permanentemente contrabalançado por órgão ou órgãos independentes de crítica e fiscalização mediante acesso à informação correspondente.
j) Os desempregados involuntários e os que procuram o primeiro emprego trabalhem, enquanto não encontrarem trabalho na normal actividade produtiva, em organizações locais de trabalho social remunerado, a que devem ser atribuídos os meios disponíveis para o pagamento dos subsídios de desemprego, sendo o respectivo trabalho destinado a apoiar actividades culturais, desportivas educacionais, de defesa do ambiente, sanitárias, apoio social e semelhantes. 

III – A democracia a nível internacional


3. O desenvolvimento da democracia é questão que ultrapassa as fronteiras dos Estados. Respeitando a autonomia de cada Estado, nas relações internacionais há que desenvolver acções que visem a promoção do respeito pelos princípios da Declaração Universal dos Direitos do Homem (publicada no Diário da República de 9 de Março de 1978) como ideal comum a atingir por todos os povos e todas as nações.
           
IV – O regime político, em Portugal não é completamente democrático

4.  Embora o actual regime político português seja, no essencial, democrático, no que respeita ao exercício do poder de julgar, que integra o poder de soberania, mantém-se não democrático por os juízes exercerem o poder de julgar sem serem para isso escolhidos mediante a expressão directa ou indirecta da vontade popular e por tempo limitado, como qualquer outro titular de poder público.
Quando a burguesia, pelo fim do século 18 e mais no século 19, foi derrubando os regimes senhoriais, cuja legitimação assentavam na vontade de Deus interpretada pelas estruturas do poder religioso, contemporizou, com a manutenção do poder monárquico, embora limitado pela Constituição, por haver resistência à abolição da longa e socialmente sedimentada tradição do poder dos reis, contemporizando também  com a prática da nomeação dos juízes para os tribunais dos meios urbanos (os chamados juízes de fora), prática que generalizou aos tribunais rurais (onde em regra os juízes eram eleitos pelo povo) para garantir que a prática judicial se submetesse também aí aos critérios decorrentes do novo regime.
Quanto ao poder dos reis em Portugal, embora constitucionalmente limitado desde a primeira metade do século 19, acabou com a revolução republicana de 1910. A atribuição do poder soberano de julgar aos juízes por nomeação vitalícia, como se o exercício do poder público pudesse ser profissão, o que é assim entendido pelos juízes a ponto de se organizarem sindicalmente, é prática que, embora também seguida na maior parte dos países europeus, não pode ser considerada compatível com a democracia, que pressupõe que todo o poder público é exercido mediante escolha directa ou indirecta pela vontade popular e por tempo limitado.

Fundo Monetário Internacional

A reforma do Fundo Monetário Internacional está a ter início
António Bica

  muito tempo que os países em desenvolvimento se sentem prejudicados com a distribuição dos votos e o correspondente poder no Fundo monetário internacional (FMI). Este organismo com funções de controle das finanças internacionais foi criado na sequência da Segunda Grande Guerra pelos Acordos de Bretton Woods. Os E U A  estavam a emergir da guerra como grandes vencedores dela por terem sido dos países com menores baixas humanas e que mais ouro acumulou com ela, não tendo sofrido destruição  por acção militar no seu território. Isso permitiu-lhe em grande medida adequar aos seus interesses as estruturas internacionais que então foram criadas.
 A regulação do sistema financeiro internacional decidido então em Bretton Woods atribuiu aos E U A o enorme privilégio de a sua moeda, o dólar, passar a ser a única de pagamento internacional e a ser moeda de reserva dos bancos centrais de todo o mundo. Os E U A assumiram então a obrigação de,  a pedido de cada banco central, cambiarem dólares por ouro à taxa de 35 dólares por onça. Essa obrigação foi assumida como  garantia de  que o banco central  norte-americano  respeitaria na emissão de notas de banco a devida proporção entre as notas em circulação e o ouro mantido nos cofres do seu banco central.
 Mas os bancos centrais dos diversos países não usaram essa prerrogativa porque, aplicando os dólares que foram acumulando no mercado  financeiro norte-americano, beneficiavam do correspondente rendimento  e o ouro que detinham nenhum rendimento gerava por não valorizar, dado estar fixada a paridade entre o dólar e o ouro em 35 dólares por onça de ouro.
  Verificando os E U A que nenhum banco central cambiava dólares por ouro, passaram a  beneficiar da emissão de dólares em notas  sem  respeitar a proporção entre o ouro detido pelo seu banco central e as quantidades de dólares emitidas e, cumulativamente, do afluxo dos dólares detidos pelos bancos centrais de todo o mundo ao mercado  financeiro norte-americano.  A inflação assim gerada era suportada por todo o mundo por o dólar ser o único meio de pagamento internacional.
 Isso permitiu aos E U A  financiar,  com grande vantagem para a reconversão da sua indústria de guerra à produção civil, a reconstrução da Europa destruída pela Segunda Grande Guerra, e depois o esforço de guerra na Coreia no início da década de 1950, e a guerra no Vietnam em simultâneo com o a corrida  para o espaço e armamentista na década de 1960.
Quando a França, no final da década de 1960, cambiou grande parte dos dólares que o seu banco central detinha por ouro junto do  banco central norte-americano, os E U A apressaram-se,  em 1971, a pôr fim unilateralmente à convertibilidade do dólar em ouro estabelecida nos acordos de Bretton Woods, sem que isso tenha afectado o estatuto do dólar de única moeda de pagamento internacional.
Agora, com o progressivo desenvolvimento das economias de parte significativa dos países mais pobres e em consequência da crise económica de 2009 desencadeada pela crise financeira de 2008, a China, a Rússia, o Brasil e a Índia passaram a questionar a actual organização do sistema financeiro internacional, incluindo o injustificado  privilégio de o dólar ser a única moeda de pagamento internacional sem sujeição a controle internacional das correspondentes emissões monetárias e os desproporcionados direitos de voto  de que gozam no FMI  muitos dos países desenvolvidos seguidores dos interesses dos E U A, onde dispõem de número de votos significativamente superior aos seus produtos internos brutos.
A percentagem dos votos no FMI de alguns dos países desenvolvidos e  a correspondente percentagem do produto interno bruto mundial é a seguinte:
 EUA – a) percentagem do seu produto interno bruto em relação ao produto interno bruto mundial: 23,6%;   b) percentagem dos votos de que dispõe no FMI: 16,74%.     Alemanha: a) - 5,34%; b) - 5,87%.  França: a) – 4,12 %, b) – 4,85%.  Inglaterra: a) -  3,64%; b) – 4,85%.    Canadá: a) – 2,52%; b) – 2,88%.    Holanda: a) – 1,24%; b) – 2,34.    Suíça: 0,84%; b) – 1,57%.   Suécia: a) – 0,72%; b) – 1,09%.   Arábia Saudita: a) -  0,7%; b) – 3,16% .
Outros países, nomeadamente os emergentes:
China: a) – 9,27%; b) – 3,65%.   Brasil: a) – 3,27%; b) – 1,38%.     Índia: a) – 2,31%; b) – 1,88%.    
Agora, na recente reunião na Coreia do Sul dos 20 países com maior produto interno bruto, os estados europeus beneficiados com maior proporção de votos no FMI em relação ao seu produto interno bruto aceitaram ceder dos votos de que dispõem o necessário para  que os países  em desenvolvimento passem a dispor de 43% dos votos no FMI.
 Esta alteração pode ser o começo para a democratização do FMI, que, se chegar a ser feita, poderá levar ao fim do lucrativo e injustificado monopólio norte-americano de a sua moeda, que pode ser emitida sem controle externo, ser o único meio de pagamento internacional.

Amorim Girão

Amorim Girão nasceu em Fataunços há 112 anos

Aristides de Amorim Girão, professor de Geografia na Universidade de Coimbra nasceu em 16/6/1895 em Fataunços, concelho de Vouzela, morreu em Coimbra em 7/4/1960.

Em 1922 doutorou-se em Ciências Geográficas na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra com o estudo Bacia do Vouga. Publicou outras obras: Lições de Geografia Humana, 1936, Geografia Humana, 1946, Geografia de Portugal, (1949-1951), Viseu. Estudo de uma Aglomeração Urbana, 1925, Atlas de Portugal, 1958, Antiguidades Pré-históricas de Lafões, 1921.

Deste último livro, Antiguidades Pré-históricas de Lafões, para melhor se conhecer Amorim Girão, transcreve-se a seguir parte do Prólogo em que o autor justifica a obra:

«Tendo de preparar uma dissertação sobre a bacia hidrográfica do Vouga, para exame de doutoramento na Faculdade de Letras de Coimbra, havia eu resolvido organizar um inquérito regional, em que convidaria a depor diversas pessoas, nomeadamente párocos e professores primários, com o fim de mais facilmente iniciar as minhas investigações para esse efeito. Um dos assuntos que mais me preocupava, e onde pressentia maior filão a explorar, era sem dúvida o das antiguidades pré-históricas e proto-históricas – tão interessantes para o estudo da história e muito particularmente da geografia humana dos antigos habitadores desta região – e por isso vá de elaborar uma pequena notícia explicativa, um catálogo de designações toponímicas referentes ao caso, uma colecção de lendas mais vulgares nas suas relações com a arqueologia, de que daria prévio conhecimento aos meus diligentes informadores, para os guiar na identificação de quaisquer antiguidades existentes na área que, por motivos diversos, melhor deviam conhecer.

Mas estes empreendimentos são sempre lentos em elaborar, exigem muitas vigílias e sobretudo muita experiência das coisas, por forma que, decorrido algum tempo, não passavam ainda de projecto.

Era natural que o rompimento de hostilidades contra a geral ignorância destes assuntos começasse pela região de Lafões, o meu berço querido, onde por motivos que a todos são óbvios, teria maior facilidade em assentar boas posições estratégicas, além de seguir o conselho do escritor francês: «se nada mais souberdes, conhecei ao menos a história da vossa terra; nela encontrareis alguma coisa que vos consolará nas horas de tristeza e desalento».

... E, entretanto, decorria Janeiro de 1917. Estávamos a 12 do mês, na festa de anos do meu querido conterrâneo e amigo Aurélio de Sousa Melo, e essa festa proporcionou-me o acaso feliz de, momentos antes do jantar, na adega, com a primeira denunciação de dois copos de óptimo Falerno, abordar o então professor primário de Ventosa, José Manuel da Silva, que conhecia bem a serra do Caramulo e suas dependências.

Estando várias pessoas presentes, achei a ocasião asada, embora o local não fosse, para falar sobre o assunto, citando o único momento megalítico reconhecido em terras de Lafões – o dolmen de Espírito Santo de Arca – e explicando ao mesmo tempo o que eram esses monumentos, formas de facilmente se reconhecerem no campo, designações toponímicas que geralmente a eles se ligam etc. Falei-lhes de uma exploração que, havia pouco, tinha levado a efeito em duas mamoas situadas junto do Crasto de Campia, e no dolmen da Meruje, já visitado pelo sábio botânico Sr. Dr. Júlio Henriques.

... O professor pousou o copo, tomou o ar solene das grandes revelações, e com gesto largo anunciou-nos que um monumento da mesma natureza existia na Malhada de Cambarinho, outro no Ventoso, junto da sua Póvoa Pequena, acrescentando a esse já grande espólio arqueológico os restos despedaçados dum cavalo de pedra, no monte Crasto (Covas), onde fora em tempos um padre fazer rezas para descobrir o tesouro encantado...

Confesso que a arenga ininterrupta do professor nos entusiasmou deveras, e desde logo se formou à volta um grupo de amigos que se propunham realizar uma excursão a êsses monumentos logo que se combinasse. E combinou-se.

Eis, em resumo, como nasceu a ideia do estudo das nossas antiguidades e também a forma como adquirir razão de ser a publicação deste livro.

Seguiram-se as excursões e os trabalhos. Logo no dia 18 de Janeiro, uma abundante queda de neve não impedia que eu e os seus dedicados amigos Dr. Manuel Ferreira, Aurélio de S. Melo, José M. da Silva, e Torres do Lameirão, fizéssemos a primeira viagem de reconhecimento à Malhada e ao Ventoso, onde examinámos os primeiros dolmens. Desde logo se projectou a sua exploração, que se não fez esperar. Dos amigos que então se prestaram a acompanhar-nos, e que muito contribuíram para que as coisas fossem levadas a efeito com a sua presença, incitamento, e mesmo até pondo à nossa disposição trabalhadores, que o próprio esforço em grande parte  substituiu e dispensou, não devemos esquecer, além dos já referidos, o malogrado José Correia de Menezes, de Crescido, Francisco de Menezes, de Cimafeita, e Paulo José de Figueiredo, muito digno Secretário de Finanças em Vouzela.

No «Correio de Lafões», jornal que então se publicou na sede do concelho, iniciámos a 18 de Março uma série de crónicas arqueológicas subordinadas ao mesmo título dêste livro, em que demos conta das pesquisas efectuadas. Em 24 do referido mês, fazíamos a exploração de uma das antelas sitas junto da povoação do mesmo nome, que se nos revelou absolutamente intacta, e logo a 28 partíamos para o Caramulo em busca de novos megálitos e com destino a uma ligeira pesquisa no dolmen da Meruje, que no dia seguinte se efectuava.

As lides escolares em Coimbra voltavam a obrigar-nos a um armistício, mas logo nas férias grandes seguintes reatávamos os trabalhos interrompidos com uma nova exploração em Antelas. No dia 20 de Agosto, partíamos com os nossos incansáveis companheiros José M. da Silva e M. Marques Mano para uma nova excursão pelo Caramulo, cujas vertentes ocidental e oriental percorríamos numa febril mas esquadrinhadora marcha de três dias. Novas antas e novos vestígios do homem pre-histórico encontrávamos.

Conhecido o Caramulo, voltámo-nos para as numerosas ramificações do maciço da Gralheira, e o resultado aqui excedeu toda a expectativa. Nada menos de vinte e quatro mamoas conseguimos descobrir em três dias, e todas desconhecidas, à excepção da que encerra o dolmen de Campo de Arca!

Excursões posteriormente realizadas a Sul, serra de S. Macário, serra da Lapa e novas pesquisas no Caramulo, Gralheira e Talhadas, quase sempre determinadas por solícitas indicações de amigos, contribuíram para aumentar o número dos monumentos conhecidos. A 29 de Outubro, explorávamos um tipo perfeito de caverna que é constituído pela chamada Cova do Lobishomem, junto de Cambra. Castros pré-históricos, proto-históricos e até já pertencentes ao período histórico propriamente dito chamavam a nossa atenção: mas aqui não pudemos ir além de simples reconhecimentos arqueológicos, no sentido de determinar a época provável do seu último povoamento.

Ultimamente, nos poucos dias das férias do Carnaval (Fev.-Março de 1919), prosseguíamos em derradeiro esforço na empresa começada. Sozinho agora, pois os nossos dois corajosos companheiros estavam longe – um transferido a seu pedido para uma escola minhota e a outro atirado pelo acaso da insurreição monárquica para as agruras do exílio – eis-nos empreendendo ainda algumas das nossas mais violentas excursões. E por esses ásperos montes, onde por vezes fomos tomado por espião ou foragido político, cajado na destra e uma carta geográfica na sinistra, continuámos febrilmente na ânsia de descobrir novos restos dos tempos pré-históricos e de os dar em seguida a conhecer, fazendo a sua publicação, que planeávamos para breve.

Mas ... – sempre o impertinente mas! – a Natureza protestava, como no episódio do Gigante Adamastor, contra o homem que imprudentemente desdenhara do trilho áspero das serranias e do alongado das distâncias a percorrer, afrontando as inclemências do tempo e o rigor das estações:

- Uma doença pertinaz, longamente incubada no terreno propício de um organismo depauperado por sucessivas provas de resistências não tardava a manifestar-se, e, com um desenvolvimento de tal modo assustador, que a medicina quase se declarou impotente para debelá-la...

Todavia, o Destino quis ainda poupar o fio que a terrível Parca tão desapiedadamente ameaçava cortar, e, prestado um longo tributo de repouso, voltámos novamente aos nossos trabalhos, assim bruscamente interrompidos, com mais cuidados é certo, mas com a mesma fé inquebrantável doutros tempos.»